Quebra-cabeça da nova ordem mundial

Declarações recentes de autoridades da UE indicam que fim das sanções pode estar próximo – mas a questão é: como Moscou deve agir quando as tensões diminuírem?
Ilustração: Iorsh

A notícia de que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, irá ao Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, onde vai se encontrar com o presidente russo Vladímir Putin, bem como uma série de declarações conciliadoras feitas por políticos alemães geraram uma onda de discussões sobre o destino das sanções contra Moscou e as relações da Rússia com o Ocidente.

No entanto, a questão principal não diz respeito a quando e como as sanções serão levantadas, mas o que acontecerá depois disso.

Relações padronizadas

Com os Estados Unidos, a resposta é simples. As relações se desenvolvem seguindo o padrão arrefecimento/tensão/escalada para descongelamento/reset. O grau varia de um período a outro, mas não o algoritmo.

Atualmente, porém, as relações estão passando por um momento atípico. Ao que tudo indica, os países estariam de “mal”, mas, devido ao caráter pacífico de Obama, que simplesmente prefere evitar conflitos, a contenção é bastante turva.

Após a mudança de governo na Casa Branca, a ideia é que as relações fiquem muito claras (no caso de Clinton) ou sofram um esfriamento temporário (Trump). O ciclo geral dos acontecimentos irão, mesmo assim, continuar o mesmo.

A situação em relação à Europa continental é mais interessante. A UE e a Rússia concordam que é impossível voltar ao “habitual modelos de negócios”, ou seja, a parceria estratégica dos anos 1990 e 2000.

Desde a década de 1990 até recentemente, as relações, especialmente desde o final da década de 2000, foram baseadas no pressuposto de que a Rússia acabaria por integrar-se à esfera europeia. O conceito de “Grande Europa”, por sua vez, nada mais era que um braço regional do “Grande Ocidente”, antes único núcleo da ordem mundial.

O chamado Ocidente, constituído por EUA, seus aliados no Oceano Pacífico, e a União Europeia, com os Estados que desejam de se juntar a ela, detinham poder sobre todos os países que, institucionalmente, não faziam parte de suas estruturas ocidentais, mas delas dependiam.

Paralelamente, os EUA estavam em um processo de simbiose econômica com a China – cuja dimensão política teria resultado em um G2 – e a UE ensaiava a criação de “espaço comum” com a Rússia, o que teria esticado as normativas europeias de Lisboa a Vladivostok. Assim, o hemisfério Norte tornar-se-ia totalmente desenvolvido, e esforços poderiam ser feitos para reduzir os riscos oriundos do Sul.

Desiquilíbrio na ordem

A crise financeira nos EUA e os problemas estruturais na UE, parcialmente provocados por ela, impuseram dúvidas sobre a capacidade do Ocidente de dominar a ordem mundial de forma eficaz. Isso levou, de um lado (o não ocidental), os países a diversificarem sua “carteira de relações” e, do outro, o desejo de provar sua força.

Em meados da década de 2010, uma nova realidade veio à tona. Sob tensões políticas, a interdependência econômica transformou-se de ferramenta para conter contradições a arma para influenciar países cara a cara.

Isso abalou o já frágil equilíbrio dentro da antiga ordem. Também estimulou as ambições daqueles, que como a Rússia, nunca se sentiram confortáveis com as condições oferecidas pelo Ocidente.

A abordagem das principais potências ocidentais havia mudado da expansão externa para a “concentração sobre os ganhos” e a consolidação de posições, ao fortalecimento do habitat delineado ao longo dos últimos 25 anos. Esta tendência pode ser observada tanto nos EUA como na UE, porém em diferentes níveis.

Desde então, Washington pretende reter seus aliados por meio de parcerias econômicas e jurídicas de grande escala, como o Tratado Transpacífico (TTP) e o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), enquanto Bruxelas se dedica a problemas internos e à estabilização do bloco europeu.

Nesse cenário, os objetivos da UE e dos EUA podem colidir. A insistência da Casa Branca em concluir o APT antes do fim do mandato de Obama está gerando nervosismo na UE em virtude da natureza secreta e opaca das negociações.

Peça única

A discussão de uma nova arquitetura da ordem mundial tem relação direta com o tema da “vida após a sanções”. Afinal, quando isso acontecer, qual papel caberá à Rússia? A própria ideia de suspensão das medidas levanta grandes dúvidas.

Como indicado nos recentes relatórios publicados pelo Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia, “o curso para a integração incondicional à economia global, o qual Moscou tomou desde 1991, esgotou-se principalmente porque a própria economia está mudando radicalmente”.

O espaço global não está dividido em segmentos isolados e a interdependência geral é irremediável. Mas, a julgar pelos últimos acontecimentos, os países que desejam integrar o tradicional núcleo ocidental terão de aceitar duras condições, e com poder mínimo de negociação.

A fase anterior da globalização apresentava um caráter altruísta: os países que estavam diligentemente recuperando o atraso tinham a oportunidade de encontrar o seu próprio lugar. Agora, o objetivo é diferente: ter “grandes reinos” responsáveis por todas as possibilidades de desenvolvimento.

E que escolha os outros têm? Criar algo próprio capaz de competir com a comunidade ocidental, ou construir uma rede complexa e flexível de relações nos mais diversos temas a fim de aproveitar oportunidades em todos os lugares possíveis.

Grande Eurásia

No caso da Rússia, a primeira opção é seguir o rumo da Grande Eurásia, isto é, a integração de projetos da União Eurasiática e a participação na Rota da Seda da China (anunciada em maio de 2015, mas que ainda não apresentou progressos).

A segunda opção é uma abordagem multivetorizada e ultrapragmática, o que requer a redução das tensões geopolíticas. Desse modo, a Rússia não teria que se encaixar no projeto ocidental, mas poderia usar as contradições internas desse projeto para avançar os seus próprios interesses. E há potencial para isso.

Nem todos os países do mundo estão entusiasmados com o referido regime ocidental de “consolidação”, pois isso limitaria suas margens de manobra com China, Rússia ou qualquer outro player global.

O continente asiático, aliás, está cheia de exemplos: o Japão faz todo o possível para desenvolver relações com a Rússia, sem abandonar a sua solidariedade para com os Estados Unidos. E os países do Sudeste Asiático estão desconfortáveis ​​com a retórica de Obama, que transforma suas participações no TTP em um grande ato anti-China.

Muitos deles preferem, por exemplo, algo semelhante a um relacionamento aberto – em vez das obrigações rígidas de um megabloco, os parceiros garantem lealdade entre si, mas com não fidelidade integral.

As características e o contraste dessas abordagens devem, portanto, se tornar a principal substância do próximo estágio de construção da ordem mundial. E os boatos sobre a suspensão de sanções contra a Rússia ficam em segundo plano ao analisarmos como o país deverá agir diante dos processos em desenvolvimento.

Publicado originalmente pelo portal Gazeta.ru

Fiódor Lukianov é presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa

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