Rússia pesa prós e contras de levantamento das sanções da UE

10 de junho de 2016 Aleksêi Lossan, Gazeta Russa
Fim das restrições pode fortalecer o rublo, mas afetará setores da economia.
Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em discurso perante o Parlamento Europeu Foto:Reuters

O Senado da França adotou na última quarta-feira (8), por maioria dos votos, uma resolução defendendo a atenuação do regime de sanções da União Europeia contra a Rússia, mediante a aplicação dos acordos de Minsk.

Além disso, representantes da Hungria e da Itália também defenderam recentemente a redução das sanções financeiras.
A Gazeta Russa falou com economistas russos para entender as consequências do possível levantamento das sanções no cenário econômico do país.

1. Fortalecimento do rublo

No final de 2014, devido à pressão política do exterior, o Banco Central da Rússia decidiu adotar o regime de câmbio flutuante para o rublo. Antes, a taxa de câmbio da moeda russa era definida diariamente pelo Banco Central.

Após a integração da Crimeia ao território russo, os investidores começaram a retirar seus ativos do país, e o rublo começou a sofrer uma pressão sem precedentes, agravada pela queda dos preços do petróleo. Como resultado, a moeda russa perdeu cerca de 60% do seu valor em relação ao dólar e ao euro.

"O levantamento das sanções ajudará a fortalecer o rublo, reduzindo os riscos geopolíticos", acredita Timur Nigmatúllin, analista da empresa financeira Finam.

2. Desaceleração da inflação

A queda do rublo levou ao crescimento dos preços dos produtos importados.  Em 2015, pela primeira vez em muitos anos, a inflação na Rússia ultrapassou 10% e atingiu 12,9%. Os economistas explicam que isso foi causado principalmente pelas restrições russas à importação, introduzidas em resposta às sanções financeiras.

Para Nigmatúllin, o retorno de produtos estrangeiros ajudará a desacelerar o crescimento dos preços. Além disso, segundo ele, o volume de investimentos estrangeiros no mercado russo também deve voltar a crescer.

De acordo com o Serviço Federal de Estatísticas da Rússia, em 2016, a inflação cairá até 7,3%.

3. Queda dos investimentos na agricultura

No âmbito do programa de substituição de importações, a queda do rublo e das importações ajudaram as empresas russas a aumentar sua produção. O setor agrícola foi o mais beneficiado nesse cenário.

Graças à desvalorização do rublo, ao apoio estatal e à saída dos concorrentes devido ao embargo, no final de 2015 a produção agrícola na Rússia cresceu 3%. Para efeitos de comparação, todos os outros setores da indústria russa caíram 2,7%. 

Caso os fabricantes estrangeiros retornem ao mercado russo, a concorrência vai aumentar drasticamente.

"O efeito sobre o mercado e a economia dependerá de quando o governo vai abrir o mercado russo: quanto mais tarde, menos perceptível será o efeito positivo sobre a moeda russa", disse o diretor-geral da empresa analítica ThetaTrading, Dmítri Ederman.

4. Cooperação com a China

Durante muito tempo o mercado russo dependeu de empresas ocidentais. Por exemplo, o principal parceiro da maior petrolífera russa, a Rosneft, foi a americana ExxonMobil, que colaborou no desenvolvimento de projetos de extração de petróleo na plataforma continental.

Após a introdução de sanções, o volume de colaboração despencou, e diversos projetos foram congelados. Durante o primeiro semestre de 2014, quando a Crimeia se tornou parte da Rússia, as empresas de petróleo e gás russas emprestaram dos bancos ocidentais apenas US$ 3,5 bilhões, valor 82% menor do que no mesmo período do ano anterior.

Nessas condições, a Rússia tentou substituir os parceiros ocidentais pela China. No entanto, estabelecer contatos com os bancos chineses não foi fácil. Apenas uma das grandes empresas russas, a Norilsk Nickel, foi capaz de obter um empréstimo de 4,8 bilhões de yuans (cerca de R$ 2,5 bilhões).

Caso os mercados ocidentais reabram suas portas para Moscou, as empresas russas voltarão rapidamente a receber investimentos desses países.

5. Queda do turismo doméstico

Devido às sanções geopolíticas e a desvalorização do rublo, a maioria dos russos (52%) pretende passar suas férias na Rússia, sendo que destes, 15% planejam visitar a Crimeia.

Apenas 4% dos russos planejam visitar países como Itália, Bulgária e Montenegro nos próximos meses, mas especialistas afirmam que o levantamento das sanções levará à queda do turismo doméstico, e os russos voltarão aos destinos europeus. 

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