Atitude russa quanto a imigrantes é uma das piores da história

19 de maio de 2017 Ekaterina Sinelschikova
67% veem trabalhadores estrangeiros como invasão de menos abastados que deve ser freada, e 32% dizem que maior motivo de irritação é o baixo nível de educação e barreira cultural, social e linguística
Russia - Migrant Workers
Por muitos anos, a Rússia esteve em segundo lugar, atrás apenas dos EUA, no ranking dos países que mais recebem imigrantes. Foto:Getty Images

Nos últimos 20 anos, os imigrantes se tornaram parte integrante das cidades russas. Só no ano passado, 16 milhões de pessoas entraram no país, 12 milhões das quais eram provenientes de países da Ásia Central. Isso significa uma quantidade de pessoas equivalente à população inteira de Moscou.

Hoje, essas pessoas são os operários que constroem prédios, metrôs, shopping centers e vias. Elas trabalham nos principais canteiros de obras da cidade, muitas vezes, 80 metros abaixo da superfície do solo, e servem a redes de lojas e escritórios terceirizados de serviços de limpeza.

Após o colapso da URSS, cidadãos da Ásia constituíram a quinta onda de imigração à Rússia – antes desses, foram ucranianos, azeris, moldavos e armênios.

Por muitos anos, a Rússia tem sido o segundo país maior receptor de imigrantes do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Mas 67% dos russos veem os trabalhadores imigrantes como uma invasão de cidadãos de países pobres que deve ser freada, de acordo com pesquisa do instituto de opinião pública Centro Levada.

Os pesquisadores acreditam que a intolerância dedicada aos recém-chegados não seja uma tendência, mas uma atitude já bem estabelecida na Rússia, e que nem a reforma migratória, nem os centros de tolerância têm sido capazes de influenciar os russos.

Imigrantes como tática política

Além dos cidadão da Ásia e outros não eslavos, os russos também são intolerantes com imigrantes – e migrantes - provenientes do Cáucaso do Norte. A porcentagem de russos contra esses, na verdade, é ainda maior, atingindo os 41% - contra os 38% de rejeição aos outros.

Nos últimos anos, essa intolerância vem crescendo também em relação a ucranianos, enquanto sua atitude tem melhorado quanto a imigrantes do Cáucaso do Sul. O binômio “Ucrânia má, Geórgia boa” ilustra bem as relações entre os países, de acordo com Karina Pipia, pesquisadora do Centro Levada.

Intolerância, que é grande em relação a trabalhadores da Ásia Central, também tem crescido quanto a ucranianos e pessoas do Cáucaso do Norte.  / Foto: APIntolerância, que é grande em relação a trabalhadores da Ásia Central, também tem crescido quanto a ucranianos e pessoas do Cáucaso do Norte. / Foto: AP

“Assim, vemos como eventos políticos internacionais como o conflito com a Ucrânia têm influenciado as atitudes quanto aos trabalhadores imigrantes desse país”, disse Pipia à Gazeta Russa.

Como a Rússia tem mostrado uma disposição mais favorável à Geórgia, isso tem gerado resultados nas relações com os imigrantes.

A imigração tem um impacto significativo na política interna. “Os políticos não são bobos. Eles usam a imigração para seu próprio benefício e para jogar com o humor popular”, diz Pipia.

Durante a corrida eleitoral de 2013, um dos principais pontos da agenda de Aleksêi Naválni foi a imposição de um regime de vistos com países da Ásia Central. O político não foi eleito prefeito de Moscou, mas ficou em segundo lugar, com 27 % dos votos (Serguêi Sobiânin obteve 51%).

A xenofobia estava latente na sociedade então, e meses depois gerou protestos no distriro de Zapadnoie Biriulevo, onde funcionava um centro de distribuição de verduras que empregava sobretudo imigrantes, e os eventos resultaram em conflitos com a polícia.

Protestos em Biriuliovo em 2013 reacenderam slogans racistas após homem do Cáucaso ser apontado como responsável pela morte de um russo étnico. / Foto: ReutersProtestos em Biriuliovo em 2013 reacenderam slogans racistas após homem do Cáucaso ser apontado como responsável pela morte de um russo étnico. / Foto: Reuters

A imprensa divulgou então que os protestos eram étnicos. Como resultado, os centros de pesquisa de opinião pública naquele ano registraram o maior recorde de aversão a imigrantes desde 2002, de 78%.

Em 2018, a Rússia realizará eleições presidenciais e é possível que a atitude negativa quanto aos imigrantes aumente novamente. O presidente Vladímir Pútin tem mantido sua política de lealdade aos imigrantes, demandando um nova lei para adaptação desses imigrantes e declarando anistia aos que tenham ultrapassado seu prazo de estadia e possibilitando nova entrada desses no país.

Imigrante trabalha no estádio Lujniki, que está sendo reformado para receber a final da Copa de 2018 em Moscou, na Rússia.  / Foto: APImigrante trabalha no estádio Lujniki, que está sendo reformado para receber a final da Copa de 2018 em Moscou, na Rússia. / Foto: AP

Porém, ele também introduziu taxas adicionais de registro e instruiu os oficiais de imigração que se certificassem totalmente do propósito e período de estadia desses imigrantes na Rússia.

“Precisamos resolver o problema de estrangeiros que entraram na Rússia sem visto e ficaram na Rússia por um longo tempo sem motivos concretos. Ou que afirmam isso... Mas provavelmente têm um motivo e o governo simplesmente não sabe qual é”, disse Pútin.

Famoso por suas declarações descabidas, o parlamentar russo e habitué entre candidatos presidenciais desde 1991 Vladímir Jirinóvski sugeriu uma saída bilateral: deportar os imigrantes das cidades grandes e distribui-los pelo interior do país, que necessita de mão de obra.

O líder da oposição Aleksêi Naválni propôs algo ainda mais radical. “Sou a favor da Ásia Central, só quero que haja um regime de vistos. Essa é uma medida normal e honesta”, escreveu Naválni no Twitter.

O opositor foi o prmeiro a começar uma campanha não oficial à presidência neste ano, e um dos pontos de seu programa são os “vistos de trabalho” para imigrantes, apesar de sua candidatura não estar resolvida.

Milhões de fantasmas

Os protestos em Biriulevo, a crise de refugiados sírios na Europa, a babá doentia do Uzabequistão que decapitou uma criança, todos os incidentes ou tragédias envolvendo imigrantes criam uma nova onda de atitudes negativas e fobias.

Uma manchete da TV estatal russa NTV anunciava, após o ataque ao metrô de São Petersburgo em abril deste ano: “O Estado Islâmico está mudando de casa: imigrantes terroristas estão vindo da Ásia Central”.

Uma reforma de 2014 obrigou os imigrantes a obter licenças de trabalho dispendiosas e visava a legalizar o mercado e aumentar a tolerância da população local quanto à mão de obra proveniente de países que gozam de isenção de vistos para a Rússia. Mas a medida não teve reflexos na opinião pública. Ela reduziu substancialmente o número de imigrantes, de acordo com o serviço de estatísticas russo, mas nem isso foi notado pelos russos.

Trabalhadores estrangeiros são detidos durante fiscalização pelo Serviço Federal de Migração  em Moscou. / Foto: Valéri Melnikov/RIA NôvostiTrabalhadores estrangeiros são detidos durante fiscalização pelo Serviço Federal de Migração em Moscou. / Foto: Valéri Melnikov/RIA Nôvosti

“A porcentagem dos russos que afirmam que o número de imigrantes diminuiu é insignificante. Trabalhos com ‘focus groups’ mostram que esses russos sabem sobre a emissão de licenças, mas só isso. No ano passado, 78% dos russos eram a favor da ideia de introduzir um regime de vistos restrito. Isso significa que a reforma ocorreu, mas a pessoas não passaram a pensar que há menos imigrantes e que eles são tratados melhor”, diz o Centro Levada.

A crise econômica teve um papel enorme ao irritar os ânimos. Na Rússia moderna, “tajique” é sinônimo de um trabalhador ilegal mal pago que está pronto para trabalhar nas piores condições possíveis – trabalho que os russos não querem executar pelo preço que é pago aos imigrantes.

“Mesmo assim, os russos ainda acreditam que os imigrantes estão roubando seus empregos, apenas porque o nível de confiança no futuro é baixo”, explica Pipia.

Mas se não levarmos em conta a atitude possessiva quanto aos postos de trabalho (a demanda por trabalhadores imigrantes é realmente alta), os motivo que mais irrita os russos quanto aos imigrantes é seu baixo nível de educação e capacidade para executar apenas trabalho sem qualificação, de acordo com 32% dos respondentes. Também mostram-se relevantes as barreiras cultural, social e linguística.

“Eles sorriem, mas isso não significa nada”, “eles quase nunca mostram seus sentimentos de verdade”, “eles pensam uma coisa, dizem outra, e fazem outra completamente diferente”, “eles não entendem o que as pessoas lhes dizem”, “eles não sabem se comportar”, e “comportam-se como se estivessem em suas casas” são algumas das reclamações que fomentam a hostilidade dos russos contra os imigrantes, ao invés de sua compaixão e compreensão.

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