Divisão da Síria é proposta como solução para conflito

5 de maio de 2017 Oleg Egorov, Gazeta Russa
Especialistas acreditam que a introdução de zonas de “desescalada” vão culminar na dissolução do país. No entanto, não haveria outra maneira de brecar a guerra civil.
Quarta rodada de negociações para paz na Síria ocorreu no Cazaquistão Foto:AFP

Durante as conversações em Astana, na quarta (3) e quinta-feira (4), Moscou e seus parceiros propuseram a ideia de introduzir zonas de “desescalada” na Síria, que serão monitoradas por contingentes estrangeiros de manutenção da paz.

A trégua na Síria, estabelecida graças à mediação da Rússia, da Turquia e do Irã em dezembro de 2016, sofreu diversas violações durante os últimos meses. Durante semanas, as forças governamentais e a oposição armada bombardeiam-se cada vez mais. A situação se agravou ainda mais após os ataques químicos na província de Idlib, em 4 de abril, que causou a morte de 89 pessoas.

Na quarta rodada de negociações na capital do Cazaquistão, os três mediadores – Rússia, Turquia e Irã – propuseram um plano de regulamentação completamente novo que prevê a criação de quatro zonas de “desescalada”, onde qualquer uso de armas será proibido, as infraestruturas serão restauradas e serão criadas condições para o trabalho de organizações humanitárias. Além disso, linhas de demarcação serão instaladas nas fronteiras para evitar bombardeamentos.

Resistência interna

Rússia, Turquia e Irã assinaram na quinta-feira (4), em Astana, um memorando para criar as zonas de “desescalada”. Representantes do governo de Bashar al-Assad expressaram apoio à iniciativa, enquanto a delegação da oposição protestou contra o papel do Irã nesse processo.

Segundo o presidente russo Vladímir Pútin, a proposta havia sido discutida também com seu homólogo americano, Donald Trump, que teria dado apoio à iniciativa.

O especialista russo em assuntos árabes Serguêi Balmasov, que integra o Conselho Russo de Assuntos Internacionais, acredita, porém, que o governo e a oposição na Síria não concordarão com a iniciativa na prática e farão o possível para miná-la.

“A ideia de criar zonas seguras tem sido discutida há vários anos, mas o conflito não foi resolvido; agora, qualquer acordo, mesmo apoiado no papel, será violado”, ressalta o acadêmico. “A guerra civil ainda está em uma fase em que ambos os lados estão dispostos a lutar para vencer, portanto, não assumirão quaisquer compromissos.”

Paz de fora para dentro

No entanto, se a pressão da troika mediadora (Rússia, Turquia e Irã) for suficientemente forte e apoiada por EUA e países do Golfo Pérsico, as forças externas poderão impor a sua solução a Damasco e a oposição, defende Leonid Issaev, professor sênior de Ciências Políticas da Escola Superior de Economia, em Moscou.

“Os players externos concordam com esse acordo, com essas regras do jogo: os sírios não estão sendo convidados e é compreensível, já que não conseguiram chegar a um acordo ao longo de anos. É por isso que agora terão de concordar com o que as outras partes estão propondo”, explica.

O memorando prevê a possibilidade de enviar contingentes estrangeiros à Síria que cuidarão das linhas de demarcação. O documento não especifica, no entanto, de onde virão os contingentes citados. Para o diretor do Centro de Estudos Islâmicos do Instituto de Desenvolvimento Inovador, Kirill Semenov, “poderíamos falar de players internacionais neutros, como a Malásia, a Indonésia e os países do Magreb”.

Segundo Semenov, as medidas que impõem uma trégua devem ser duras e aplicadas não só à oposição, mas também às forças governamentais. “Só então será possível o sucesso das novas propostas”, conclui.

Síria “só existe no Google Maps”

Os trabalhos relacionados ao memorando apenas começaram. Segundo a delegação russa, a ação de combate nos territórios indicados no documento cessará a partir deste sábado (6), e as fronteiras das zonas de “desescalada” ainda precisam ser definidas.

O objetivo é que, após a implantação do projeto, o país seja dividido entre áreas controladas pelo governo e pela oposição, com a atuação de mediadores.

“Isso significará, de fato, uma divisão da Síria. Mas a verdade é que a Síria não está unida há vários anos”, destaca Balmasov, acrescentando que nenhum dos lados tem ilusões sobre a coexistência pacífica. “Sua participação nas negociações em Genebra e Astana é apenas de fachada”, acrescenta o especialista.

Também segundo Issaev, da Escola Superior de Economia, “a Síria como Estado existe apenas no Google Maps, nas aulas de geografia e na placa da cadeira da ONU”.

No entanto, o professor acredita ser improvável que as forças opostos a Damasco, sejam elas a oposição ou os curdos, estejam pensando seriamente em estabelecer Estados independentes. “Estes serão, a priori, Estados falidos, pois não dispõem de recursos para uma existência independente. Isso cria a possibilidade de a Síria se restaurar como um Estado único, ainda que num futuro longínquo”, conclui.

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