Macron e Le Pen são polos opostos para o Kremlin, dizem analistas russos

Poucas horas após a contagem dos votos, os analistas russos já discutiam sobre os resultados no segundo turno. A maioria concorda que, se vitorioso, Macron poderá adotar uma postura política ainda mais severa em relação à Rússia.
Macron derrotaria Le Pen por 61% dos votos, diz pesquisa sobre segundo turno na França Foto:Reuters

Em caso de vitória no segundo turno, Macron irá inaugurar no confronto com a Rússia uma postura política ainda mais fechada do que a já adotada pelo atual líder francês François Hollande. Esta é a opinião dos analistas entrevistados pela Gazeta Russa momentos antes do fechamento das urnas no último domingo (23).

O segundo turno das eleições na França será composto pelo centrista Emmanuel Macron (que recebeu 23,75% dos votos válidos) e pela líder da Frente Nacional, Marine Le Pen (21,53%). Mas, apesar da vantagem de Macron, candidato menos aberto ao diálogo com Moscou, a vitória não é tão óbvia, garantem os especialistas.

Braço de ferro político

Embora se apresente como uma nova face da política, longe do tradicional oposição entre direita e esquerda, Emmanuel Macron é o “candidato mainstream do sistema político francês”, define Iúri Rubinski, diretor do centro de pesquisas francesas do Instituto Europeu, ligado à Academia Russa de Ciências.

Segundo o especialista, o fato de outros candidatos como o socialista Benoît Hamon e o republicano François Fillon terem decido apoiar Macron após a derrota no primeiro turno só contribui para fortalecer essa teoria.

Macron agradece apoio após vitória no primeiro turno (Foto: Reuters)Macron agradece apoio após vitória no primeiro turno (Foto: Reuters)

“O centrista é um candidato sintético apoiado por várias facções políticas. Parece uma espécie de Lego”, afirma Andrêi Suzdaltsev, vice-diretor do departamento de Política e Economia Mundial da Escola Superior de Economia de Moscou.  

“Na França concilia socialistas e centristas, enquanto, como globalista, orienta-se para os centros mais estabelecidos do poder: Washington e Berlim”, acrescenta.

Suzdaltsev acredita ainda que Macron estará alinhado à política externa alemã, que mantém restrições em relação à Rússia. “No entanto, há chances de que Macron seja ainda mais hostil em relação a Moscou do que seu antecessor Hollande”, sugere.

Outros especialistas, porém, acreditam que, por ser um tecnocrata pragmático, Macron terá de lidar com as reais possibilidades sem elevar o tom contra o Kremlin.

As chances de Le Pen

Os analistas acreditam que, apesar de Macron ser apontado como o favorito no segundo turno, não se pode excluir o potencial de votos da Frente Nacional, Marine Le Pen – haja vista o triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos, onde grande parte dos observadores já tinha como certa a vitória de Hillary Clinton.

Os especialistas entrevistados pela Gazeta Russa também concordam que, em caso de vitória, Le Pen estaria mais aberta em relação à Rússia. Em recente visita a Moscou, a candidata francesa se encontrou, inclusive, com o presidente Vladímir Pútin.

No entanto, é também unânime a ideia de que Le Pen não irá se guiar pela vontade do Kremlin, mas, em vez disso, prosseguirá uma política independente.

Apesar de prognósticos, vitória de Le Pen não pode ser descartada (Foto: Reuters)Apesar de prognósticos, vitória de Le Pen não pode ser descartada (Foto: Reuters)

De acordo com Rubinski, alguns fatores podem contribuir para um resultado positivo para a líder da Frente Nacional: um dos principais candidatos no primeiro turno, o radical Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento “A França Insubmissa”, que teve quase 20% dos votos, não tem planos de endossar nenhum candidato.

No caso da esquerda radical, que, em geral, engloba as pessoas das camadas mais populares na França, “uma parte significativa dos grupos socialmente vulneráveis ​​e eleitores decepcionados vai votar para a Frente Nacional em protesto”, diz.

Suzdaltsev concorda sobre o potencial de votos de Le Pen e destaca ainda que 20% dos eleitores não compareceram às urnas no último domingo.

“Entre aqueles que não foram votar, há também partidários da Frente Nacional que poderiam se mobilizar para a nova votação. É um comportamento particular, ditado pela necessidade de não proclamar suas crenças políticas por causa da reputação de Le Pen. No segundo turno, no entanto, quando os ânimos políticos estarão ainda mais acirrados, eles podem decidir exercer o seu direito de voto”, explica.

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