Consequências dos protestos

31 de março de 2017 Ekaterina Sinelschikova
Professores universitários fazem campanha contra Naválni, senadores querem investigação e escolas incluíram em seus currículos, a toque de caixa, aulas sobre o combate à corrupção.
RUSSIA PROTESTS
Protestos colocaram "batata quente" nas mãos do governo. Foto:Reuters

Os protestos anticorrupção ocorridos simultaneamente em diversas cidades russas no último domingo (26), colocaram uma batata quente nas mãos do governo, de quem os cidadãos esperam respostas.  

Depois de cinco dias de pausa, Vladímir Pútin disse: “O problema [da corrupção] diminuiu nos últimos tempos... Considero errado quando as forças políticas tentam usar esses instrumentos em benefício próprio, e não para melhorar a situação do país”.  

Alguns dias antes, o porta-voz do presidente, Dmítri Peskov, deu a entender que o Kremlin tem uma atitude “razoável” quanto aos protestos, chamando-os de “provocações” da oposição.

Além disso, o premiê Dmítri Medvédev, razão formal da insatisfação popular, não é parte dos comentários do Kremlin.

O próprio premiê decidiu não tecer comentários, e no dia dos protestos esquiava, de acordo com seus posts em redes sociais.

As elites quanto ao movimento

Os primeiros a demandar investigações quanto a supostas casas nas montanhas e castelos na Toscana foram os comunistas, que escreveram um requerimento, ainda sem resposta.

Eles foram seguidos pelo partido “Spravedlivaia Rossia”, o segundo no parlamento, com pedidos mais cautelosos de esclarecimentos.  

Já na última quarta-feira (29), foi o senador Viatcheslav Markhaev quem propôs à Procuradoria Geral que começasse imediatamente uma investição sobre os rendimentos do premiê.

“Vamos continuar a nos calar ou tomaremos alguma medida, pelo menos no nível legislativo?”, disse o senador aos colegas.

Mas a chefe da câmara, Valentina Matvenko, terceira no ranking hierárquico do governo russo, não deu aval. Segundo ela, devido a uma má “formulação” de Markhaev.

A reação do governo quanto aos protestos mostrou que o Kremlin não conseguiu formar uma posição consolidada diante da situação Foto: ZUMA Press/Global Look PressA reação do governo quanto aos protestos mostrou que o Kremlin não conseguiu formar uma posição consolidada diante da situação Foto: ZUMA Press/Global Look Press

A senadora Elena Mizúlina, famosa pela coatoria da lei “antigay”,  relembrou dos programas escolares depois dos protestos.

Segundo ela, em algumas escolas, as aulas de patriotismo foram substituídas por aulas sobre o combate à corrupção, onde os estudantes mostram rankings mundiais em que a Rússia “figura bem no pé da lista, com o Uzbequistão, uma tendência muito perigosa”.

Já nas instituições de ensino superior, os professores têm feito propaganda contra os protestos, explicando aos estudantes que esses “não mudam nada”, e que seu organizadors, Aleksêi Naválni, “age sob ordens da embaixada dos EUA”.

Assim, durante a cerimônia do prêmio nacional “Nika”, o diretor de cinema Aleksandr Sokurov, sob uma chuva de aplausos, qualificou como “censura” e “agressão” a atitude de prodessores quanto aos estudantes.

O que mudou?

A reação do governo quanto aos protestos mostrou que o Kremlin não está preparado para esses e não conseguiu formar uma posição consolidada diante da situação.

“Isso é confirmado pelo fato de uma parte da elite se calar, a outra se manifestar em concordância com novas medidas proibitivas, e uma terceira, pelo contrário, falar sobre possíveis indulgências”, disse o analista Rostislav Turovski, do Centro de Tecnologias Políticas, à Gazeta Russa.

Segundo ele, a tática do governo de ignorar o país é a mais vantajosa nessa situação.

“Nosso sistema foi erigido de forma que, se a pessoa está limpa, mas começa a se defender, então a opinião pública consideram que ela está envolvida em algo”, disse o diretor do Instituto de Sociologia Política, Viatcheslav Smírnov, à rádio Kommersant FM.

O cientista político Aleksêi Múkhin, próximo ao Kremlin, diz que, enquanto o caso não tem relação com os órgãos de manutenção da lei, o premiê pode se portar como quiser.

“Já a motivação dos deputados é conhecida por todos: eles agora estão naquela fase em que precisam ser lembrados pelo eleitorado. É quase um reflexo involuntários eles colocarem o premiê nessa posição”, diz.

Mas o estrago já está feito, de acordo com outros analistas. “Isso influencia nas perspectivas de Medvédev depois de 2018 como chefe do governo e diminui a crença de que ele continue”, disse o presidente do Instituto de Estratégias Nacionais, Mikhail Remízov.

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