‘Carne Fraca’ tem poucos resultados práticos na Rússia

27 de março de 2017 Maria Azálina
Operação conduziu a leve queda na demanda do consumidor e nenhuma restrição, por enquanto, pelas autoridades. Para analistas, estímulo à produção interna seria elemento-chave para garantir qualidade de produto consumido por russos.
In 1985, the Soviet Union imported 936,000 tons of meat and meat products. Source: AP
Em 2016, a Rússia importou US$ 1,03 bilhões de dólares em derivados de carne brasileiros. Foto:AP

Com o escândalo gerado pela operação “Carne Fraca”, a agência fitossanitária russa Rosselkhoznadzor aumentou o controle para a importação de carne do Brasil e aguarda documentação oficial brasileira sobre as exportações do país.

Enquanto isso, muitos países se apressaram em colocar limites à importação de carne brasileira. Os membros da União Europeia e a China se apressaram em interromper o descarregamento de contêineres com o produto, enquanto Chile e México proibiram imediatamente as importações. Canadá, África do Sul, Japão, Arábia Saudita e Egito também restringiram importações.

Para analistas, a Rússia caiu em uma zona de risco devido ao escândalo. De acordo com o “Sistema Unificado de Informações sobre o Comércio do Governo Brasileiro”, a Rússia é o quinto importador de carne brasileira em termos de volume, atrás apenas da União Europeia, China, Hong Kong e Arábia Saudita.

Em 2016, a Rússia importou US$ 1,03 bilhões de dólares em derivados de carne brasileiros, de acordo com a agência Tass.

Das 21 empresas envolvidas nas investigações, porém, somente duas exportam à Rússia: a BRF, com produtos avícolas e a JJZ Alimentos, com carne bovina.

Apesar dos avanços na produção interna, principalmente de carne de aves e suína, o mercado interno ainda depende fortemente da importação de carne bovina.

“Quase 25% de toda a oferta de carne vermelha no mercado se dá por meio de importação, sobretudo da América Latina”, ressalta o analista da broker “Alor”, Kirill Iakovenko.

É justamente a carne proveniente do Brasil e da Argentina que compõe a maior parte das importações nas prateleiras de supermercados e nos cardápios de empresas de catering.

Devido aos preços baixos em relação à carne resfriada ou congelada russa, a carne bovina importada da America do Sul é usada sobretudo para processamento.

“A maior parte dos players no mercado entram em acordos com fornecedores latino-americanos de carne bovina pela necessidade de baixar o preço da produção”, diz o fundador da rede de estúdios de culinária “CulinaryOn”, Aleksandr Blank.

“A carne latino-americana é 20% ou 30% mais barata que a russa. Mas a qualidade deixa a desejar”, diz Blanc ao site Lenta.Ru.

A principal diferença na carne latino-americana, de acordo com ele, está no sabor “de fígado frito”, e no forte odor de sangue.

“Nossos especialistas usaram diversas vezes carne proveniente do Brasil, do Uruguai e do Paraguai, mas a qualidade da produção não era satisfatória”, diz.

Além de carne resfriada, a Rússia também importa catne em conserva. No ano passado, foram 20 toneladas desse tipo de carne, 14,5 mil toneladas, dos países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes) e o restante, de outros países.

“Mas, devido a seus preços mais baixos que a carne fresca de produção local, mais cara, frequentemente é justamente a carne importada que vai para as conservas. Assim, é muito provável que haja também carne brasileira nos guisados enlatados”, diz Kirill Iakovenko.

Sem restrições

“É natural que os exportadores brasileiros procurem um nicho de mercado. E esses mercados serão aqueles que não tiverem inserido restrições. A Rússia, nesse cenário, está em uma zona de risco”, acredita Iakovenko.

O país protela as restrições devido ao fato de que precisa escolher exportadores que não estejam sob suas contrassanções e que sejam capazes de abastecer o volume necessário no mercado.

“A carne brasileira constitui quase metade das importações. A eliminação dessa em um mercado que só pode abastecer, no máximo, 75% da demanda representaria saltos acentuados nos preços a varejo e aceleração da inflação”, diz o analista.

A Rússia conduz negociações com o México para o fornecimento de 200 a 400 mil toneladas de carne. Mas analistas são céticos.

“No ano passado, o país  conseguiu exportar um total de 161 mil toneladas de carne, e não se sabe de onde ele tiraria outras 300 mil toneladas em prazo tão curto. Não há capacidade, nem cabeças de gado suficiente para isso - apenas se houver uma reexportação da mesma carne bovina brasileira”, diz Iakovenko.

Segundo ele, é preciso levar ainda em conta que, em termos de corrupção, o México dificilmente se sairia melhor que o Brasil, por isso contar com o primeiro para se obter uma carne de maior qualidade seria complicado.

Além disso, o México se encontra na zona de influência dos EUA, o que faz dele um país não tão independente para que se chegue à decisão de se fechar um acordo de longo prazo para o fornecimento.

Mas, principalmente, a Rússia vedou a importação de carne bovina mexicana ainda em 2012 devido ao uso de substâncias proibidas na Rússia na criação de gado.

No mesmo ano, também a produção brasileira foi proibida no país depois de se descobrir o uso de ractopamina, um hormônio de crescimento, no gado. O embargo foi retirado apenas em agosto de 2014, e após isso 27 frigoríficos brasileiros foram autorizados a exportar carne à Rússia; 26 outros, carne de aves e derivados; e quatro, carne suína.

Independência das importações

Para o analista da UFC Markets, Dmítri Lukachov, a Rússia poderia se libertar completamente da dependência de importações de carne.

Apesar de a demanda por todos os tipos de carne na Rússia ter aumentado quase 40% nos últimos 15 anos, a produção de carne de aves praticamente triplicou, e a de carne suína aumentou 70%. Apenas a carne bovina nacional continua a ser insuficiente para suprir a demanda.

Devido a particularidades do clima russo, sua produção caiu quase 18%, e especialistas acreditam que, devido a esse, talvez ainda não seja hora de superar a dependência das importações.

“Atualmente, a Rússia caminha para uma queda moderada da importação de carne, e em um futuro próximo, essa tendência será mantida”, diz o sócio da “Kirikov Group”, Daniil Kirikov.

Para ele, o modo mais eficiente de se manter a qualidade é apoiando a produção interna.

“A tarefa é cara e lenta, mas, como mostra a experiência do embargo de produtos alimentares, ela é simplesmente necessária algumas vezes”, diz.

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