As vozes da emancipação feminina na Rússia

Feita do início ao fim por mulheres, nova coletânea editada no Brasil pincela visões do feminismo russo e serve de referência para historiadores e especialistas.
A demonstration of women on Nevsky Avenue near the State Duma
Russas conquistaram direito de voto ainda em 1917, antes de França, Alemanha, Grã-Bretanha, EUA ou Brasil. Foto:Peter Otsup/RIA Novosti

Lendo a recém-lançada coletânea “A revolução das mulheres”, organizada por Graziela Schneider, tomei pela primeira vez consciência sobre a quem eu, nascida e crescida na União Soviética, devo minha emancipação, situação de igualdade e todos os direitos de mulher que, desde a infância, são-me tão naturais quanto o ar que respiro.

Talvez por isso, sempre estranhei ao ver as brasileiras reclamarem do machismo, enquanto em meu país, pelo contrário, são as queixas dos homens que ecoam mais, já que esses sofrem com o poder concentrado nas mãos das mulheres no dia a dia - na vida familiar, econômica e social.

Mas, como se sabe, uma moeda sempre tem dois lados. E devo confessar que a emancipação feminina na Rússia é uma bela rosa que, obviamente, sempre tem espinhos.

Autoras de coletânea são russas que, ainda no início de século 20, tomaram a frente como líderes e ideólogas dos movimentos feministas que levaram a muitas conquistas sociais, como o direito de voto. / Foto: DivulgaçãoAutoras de coletânea são russas que, ainda no início de século 20, tomaram a frente como líderes e ideólogas dos movimentos feministas que levaram a muitas conquistas sociais, como o direito de voto. / Foto: Divulgação

As autoras da coletânea, escolhidas a dedo e, em sua maioria, inéditas no Brasil (Aleksandra Kollontai, Anna Kalmánovitch, Ariadna Tyrkova‐Williams, Ekaterina Kuskova, Elena Kuvchínskaia, Inessa Armand, Konkordia Samoilova, Liubov Guriêvitch, Maria Pokróvskaia, Nadiejda Krúpskaia, Olga Chapir) são as russas que, ainda no início de século 20, tomaram a frente como líderes e ideólogas dos movimentos feministas que levaram a muitas conquistas sociais e, antes de mais nada, ao direito de voto - que lhes foi concedido logo após a revolução de Outubro, em 1917, bem antes de isso acontecer na França, Alemanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos ou Brasil.

O livro não apenas é composto exclusivamente por textos de mulheres, mas também é organizado, traduzido (diretamente do russo) e preparado apenas por mulheres – mais um ato simbólico de união internacional pela causa feminina.

Aliás, creio que todos concordam com Olga Chapir, escritora e feminista russa que , ainda em1909, no Primeiro Congresso de mulheres em São Petersburgo, afirmou o seguinte: “A emancipação das mulheres pode e deve ser conquistada apenas por meio de suas próprias forças – pela sua investida. De fato, é impossível exigir que o homem aspire a limitar seus próprios monopólios habituais com a mesma paixão com que naturalmente alcançamos todos os direitos humanos”. O trecho está disponível nesta coletânea, na p.43, em tradução de Gabriela Soares.

Educação feminina

As primeiras teorias de emancipação da mulher na Rússia nascem nos anos 1860, época das grandes reformas sociais que, ao abolirem a servidão, visaram a democratizar e renovar a sociedade russa, abrindo novos caminhos para alfabetização do povo e, não menos importante, para a educação das mulheres.

Então, fundam-se ginásios e instituições de ensino superior femininos. Foi nessa época que as mulheres russas, segundo uma observação feliz da feminista Maria Tsebrikova, “ouviram a anunciação de que elas também eram humanas e nada do que é humano lhes era estranho”.

E não é por acaso que a maioria das autoras do livro “A revolução das mulheres” são filhas dos anos 1860: elas estudaram nos primeiros, então recém-criados, ginásios femininos.  Esse é, por exemplo, o caso de três das autoras que compõem a coletânea, importantes líderes do movimento das mulheres. Krúpskaia, Tyrkova‐Williams e Gurévitch se formaram no afamado ginásio da princesa Obolénskaia.

Uma mesma formação não gerou, porém, unidade nas visões políticas das três nas questões feministas. Tyrkova‐Williams, amiga íntima da esposa de Lênin, Krúpskaia, lembra-se como o futuro líder da revolução de Outubro ficou com raiva de sua visão da emancipação da mulher e prometeu “enforcar todos liberais, como ela, nos postes de luz nas ruas”. 

Tenho certeza de que, para os leitores brasileiros (e, aqui, creio que o livro contará não apenas com leitoras mulheres), será interessante conhecer e comparar as múltiplas facetas da história do movimento e do pensamento feminista da Rússia. 

Já Aleksandra Kollontai, a “comunista emancipada sexualmente”, como ela própria se define, talvez seja a mais conhecida dessas figuras fora da Rússia. E, a meu ver, é a mais brilhante entre as feministas russas.

Precursora, mulher e amante

Primeira mulher embaixadora da URSS, Kollontai não temia ser radical na luta pela igualdade dos direitos das mulheres. Isso chegou a tal ponto que muitas ideias de liberação feminina que ela defendera no início do século 20 ressoariam na revolução sexual das décadas de 1960 e 1970.

Certamente, para o leitor brasileiro seria interessante conhecer os escritos sobre a questão feminina de duas mulheres mais próximas de Lênin – sua esposa Nadejda Krúpskaia e sua amante, Inessa Armand – e verificar como a visão marxista da luta de classes, essencial para a ideologia leninista, refletiu-se nos ensaios de ambas.

Enfim, o livro dá a possibilidade de se conhecerem muitas abordagens das questões feministas. Alguns pontos de vista podem parecer óbvios, outros, polêmicos, mas todos os textos permitem, finalmente, que se consulte diretamente as fonte e são importantíssimos para os estudos da história do movimento feminista na Rússia.

Elena Vássina é russa e vive em São Paulo, onde é professora de Literatura e Cultura Russa na USP.

Para mais informações sobre o evento de lançamento da coletânea em SP, clique aqui.

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