Por que Stálin transformou Púchkin em um deus

19 de fevereiro de 2017 Vladímir Mojegov, Vzgliad
Em 1937, o ano do Grande Terror, Stálin decidiu celebrar Púchkin como um deus socialista para conquistar apoio popular. O poeta, reverenciado como um gênio literário antes da Revolução Russa, viu sua reputação ir aos céus entre os soviéticos.
Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto:Arquivo

Este ano marca não apenas o 100º aniversário da Revolução de 1917, mas também o 80º aniversário do Grande Terror, em 1937. Naquele ano, a Rússia soviética também celebrou, em uma escala sem precedentes, o 100º aniversário da morte de Aleksandr Púchkin. O grande poeta tinha permanecido até então nas sombras, mas, em 1937, tornou-se protagonista do panteão cultural soviético.

Em vez do marxismo que rejeitava a cultura, o espírito nacional, o Estado tradicional e a espiritualidade, Stálin decidiu apresentar ao mundo um império quase clássico, centrado na cultura, que tinha como figura central Púchkin.

Púchkin nas alturas

A decisão de celebrar Púchkin como um deus socialista pertenceu a Stálin. Para entender a estranheza de sua iniciativa, vale a pena lembrar que no século 19 Púchkin era um poeta conhecido apenas pela elite intelectual. A lista de leitura para a intelligentsia revolucionária não incluía Púchkin porque ele era considerado muito distante e indiferente às necessidades imperativas do povo.

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Stálin, no entanto, era bem versado em literatura russa clássica e gostava não só do revolucionário Tchernichevski, mas também de Dostoiévski e Púchkin.

A ideia de exaltar o poeta foi fortemente influenciada pela diáspora russa no exterior, que, a partir de meados da década de 1920, desenvolveu um forte interesse por suas obras. O regime acompanhava de perto as evoluções da diáspora, e Stálin mesmo assinava quase todas as principais publicações dos círculos de emigrantes russos.

Em 1937, a comunidade de russos no exterior planejava realizar seus próprios eventos em celebração a Púchkin, o que significava que o legado do poeta poderia se tornar uma arma política perigosa em suas mãos – portanto, era necessária fazer uma manobra oficial. Embora alguns historiadores aleguem ter sido esta a lógica de Stálin, não há consenso nem comprovações sobre tal tese.

Culto a personalidade

A partir de 1922, começaram a ser realizadas cerimônias oficiais anualmente para o aniversário da morte de Púchkin; nelas, o poeta era descrito como “primavera russa, manhã russa, Adam russo” e também comparado a Dante, Shakespeare, e Goethe.

O culto de Púchkin atingiu um nível sem precedentes. Os preparativos para a celebração envolveram todos – acadêmicos, escritores, compositores, políticos e figuras públicas, empresas cinematográficas, teatros e fábricas, bem como fazendas coletivas e estatais. Todo cidadão do país deveria saber que Púchkin era “sagrado”.       

Selos da série "Centenário da morte de Aleksandr Púchkin" (Foto: Aleksêi Buchkin)Selos da série "Centenário da morte de Aleksandr Púchkin" (Foto: Aleksêi Buchkin)

Novos monumentos a Púchkin foram inaugurados em Leningrado (atual São Petersburgo), Kiev, Minsk, Tbilisi e Erevan. Novas ruas, praças, escolas, parques, estações de metrô e de trem, fazendas coletivas e estatais foram nomeadas em sua homenagem ou construídas em sua honra. Artistas pintavam telas gigantes dedicadas ao poeto, os compositores escreviam músicas para cantar elogios a Púchkin, e os principais teatros de Moscou e de Leningrado competiam acirradamente para realizar produções das obras do mestre literário.

O nome de Púchkin era ainda exclamado por alto-falantes e gramofones, algumas ruas e praças foram decoradas com seus retratos, e pôsteres e cartões postais estampavam seu rosto e versos. As escolas, as fábricas e as fazendas coletivas por todo o país organizaram, naquele ano, exposições quase idênticas sobre o escritor.

Hordas de fãs

O número total de publicações dedicadas ao aniversário da morte de Púchkin ultrapassou os 14 milhões de cópias. Havia materiais impressos em quase todas as línguas faladas na URSS, incluindo assírio, grego e hebraico, entre outras.

 

Fábricas e fazendas coletivas de repente se depararam com hordas de entusiastas e conhecedores das obras do poeta, e vários clubes de adoradores de Púchkin iam se formando. Associações artísticas e mestres artesãos, assim como pintores de ícones que antes criavam imagens de São Nicolau para o povo, inundaram o país com milhares de estátuas e bustos de Púchkin, e outros lembretes visuais de sua vida.

Em 10 de fevereiro de 1937, no dia que marca o aniversário de morte do poeta, foi realizado um encontro oficial no Teatro Bolshoi, em Moscou. Toda a elite do Partido Comunista, incluindo Stálin, estava ali presente.

“Púchkin é nosso! É somente em um país de cultura socialista que o nome do gênio imortal está cercado de amor ardente; só em nosso país que as obras de Púchkin se tornaram um tesouro para todo o povo”, exclamou o comissário para educação e presidente do Comitê Púchkin, Andrêi Bubnov, durante o evento transmitido ao povo.

A glorificação de Púchkin estava completa, e o culto ao poeta, estabelecido. Nas palavras do filósofo Antonio Gramsci, o endeusamento de Púchkin “cimentou as forças populares”, unindo um país multiétnico em um espaço cultural comum.

Versão resumida de reportagem publicada pelo jornal Vzgliad

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