Encalhados no Pacífico: pesca no gelo desafia a morte

À medida que a temperatura esquenta e os ventos fortes começam a soprar, a temporada de gelo à deriva tem início no Extremo Oriente russo. Enormes blocos de gelo se desprendem da costa e flutuam pelo Oceano Pacífico. Todos os anos, o Ministério para Situações de Emergência russo alerta os pescadores sobre os perigos da pesca no gelo durante esse período. Ainda assim, centenas de trabalhadores ficam encalhados em blocos de gelo todos os anos. A Gazeta Russa conversou com funcionários da equipe de resgate.

Tripulação de barco pesqueiro teve de esperar uma semana para o resgate no mar de Okhotsk (Foto: Serguêi Krasnouhov/RIA Nôvosti)Tripulação de barco pesqueiro teve de esperar uma semana para o resgate no mar de Okhotsk (Foto: Serguêi Krasnouhov/RIA Nôvosti)

A baía de Mordvinov, na costa sudeste da ilha de Sacalina (6.115 km a leste de Moscou), no mar de Okhotsk, é mais uma vez destaque do noticiário local. A razão não tem nada a ver com a beleza natural do local, mas com os blocos de gelo que, impulsionado pelo calor e ventos fortes, estão se distanciando cada vez mais da ilha.

Inúmeras placas alertando que “caminhar sobre o gelo é extremamente perigoso” pontilham a costa. Mas nem assim os pescadores locais se sentem impelidos. A maioria dos moradores que não são funcionários de petroleiras não têm outra fonte de renda exceto a pesca, mesmo sendo um negócio arriscado.

E o vento levou

Só nos últimos 10 dias de fevereiro, 35 pescadores foram levados mar de Okhotsk adentro. Todos foram resgatados pela equipe local do Ministério para Situações de Emergência, mas isso nem sempre é fácil. Quando o pessoal de resgate não conseguem chegar à região de barco ou helicóptero, os pescadores, muitas vezes, morrem de hipotermia ou afogados tentando voltar para terra firme por conta própria.

Pesca no gelo é fonte de renda para diversos moradores locais (Foto: Konstantin Kokochkin/Global Look Press)Pesca no gelo é fonte de renda para diversos moradores locais (Foto: Konstantin Kokochkin/Global Look Press)

Não há dados precisos sobre quantas pessoas ficam encalhadas em blocos de gelo a cada ano, mas acredita-se que sejam milhares.

“Demora poucos minutos para uma calota de gelo se desprender da costa”, diz Aleksêi, um dos pescadores resgatados na baía de Mordvinov. “Na parte da manhã, o tempo estava ótimo, ensolarado, não tinha vento; mas, na parte da tarde, uma tempestade de neve começou de repente. O gelo tem agora cerca de 45 centímetros de espessura, mas um vento leve é ​​tudo que precisa para que ele comece a rachar. Quando se está a 5 km de distância da costa, não há como voltar antes de a rachadura ficar muito larga. Para piorar as coisas, é preciso caminhar com neve até os joelhos.”

Porém, um dia após o episódio, Aleksêi já voltou a pescar. “O que eu posso fazer? Preciso pagar as contas e sustentar minha família”, justifica. E ele não é o único.

Trailers de pescadores ocupam todo o caminho ao longo da estrada que vai da aldeia de Okhotskoie à margem do lago Tunaitcha (a cerca de 800 metros de distância).

Infração sem pena

De acordo com o escritório local da pasta para Situações de Emergência, as equipes de resgate locais trabalham 24 horas por dia e em constante estado de alerta.

Embora os pescadores sejam diariamente avisados ​​sobre os perigos da pesca no gelo, não há como penalizá-los.

Apesar dos riscos, pescadores se aventuram nos blocos por falta de opção (Foto: Vladímir Smirnov/TASS)Apesar dos riscos, pescadores se aventuram nos blocos por falta de opção (Foto: Vladímir Smirnov/TASS)

“Alguns anos atrás, eles foram multados, mas as multas foram abolidas pelo tribunal”, disse Denis Ilinov, chefe de uma das equipes locais. “Na época soviética, quem tinha a sorte de ‘passear’ em um helicóptero de resgate, tinha que pagar depois, e o custo era, às vezes, maior do que se ganhava em um mês.”

Os recursos do ministério são hoje mais sofisticados do que naquela época e envolvem helicópteros, aerobarcos e diversos funcionários, gerando alto custo para os cofres federais.

Outro funcionário do órgão, que preferiu não ser identificado, referiu-se à atitude dos pescadores como “frustrante”. “Fico tentando a dizer a eles que se atirem, que sigam em frente e morram, porque não iremos salvá-los. Nós continuamos avisando, e eles simplesmente não mudam. Eles sabem que serão resgatados”, diz.

Em 1º de março, 1.500 pescadores foram pescar na baía de Mordvinov, ignorando as condições climáticas adversas.

O ministério chegou a realizar uma sessão informativa sobre o assunto e alertou os pescadores sobre a formação de uma fenda em uma região próxima à costa. O órgão declarou ainda que, em caso de emergência, nenhum helicóptero seria enviado para procurá-los por causa das nuvens baixas. No entanto, poucos pescadores abandonaram a zona de risco, obrigando as autoridades a implantar quatro unidades de patrulha adicionais ao longo da costa.

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