Pútin lamenta morte de Fidel: ‘Símbolo de uma era’

Revolucionário cubano Fidel Castro faleceu em Havana neste sábado (26), aos 90 anos. Autoridades e figuras da oposição mostraram diferentes reações diante de notícia.
Figura de Fidel continuará dividindo opiniões, diz acadêmico russo Foto:Reuters

O líder da Revolução Cubana e fundador do primeiro país socialista no hemisfério ocidental, Fidel Castro morreu aos 90 anos em Havana no início da madrugada deste sábado (26). O anúncio foi feito por seu irmão e sucessor, Raúl Castro.

Na Rússia, com a qual Castro sempre manteve relações mais calorosas, a notícia da morte do revolucionário cubano foi recebida com tristeza pelas autoridades, e muitos pessoas estão deixando flores em frente à residência do embaixador cubano em Moscou.

O presidente russo Vladímir Pútin ofereceu condolências, após o anúncio da morte de Fidel Castro, e disse que seu nome se tornaria um símbolo da época na história global recente, segundo informou o departamento de imprensa do Kremlin.

“A Cuba livre e independente que ele e seus parceiros construíram tornou-se um membro influente na comunidade internacional e serviu de exemplo inspirador para muitos países e nações”, disse Pútin em um telegrama ao povo e ao governo cubano.

Putin (dir.) e Fidel durante cerimônia para receber o presidente russo em Havana, em 2000 Foto: ReutersPutin (dir.) e Fidel durante cerimônia para receber o presidente russo em Havana, em 2000 Foto: Reuters

Medvedev, Gorbatchov e outros

“Castro foi um dos grandes, daqueles que mudaram o mundo”, publicou, em seu Twitter, o ex-chefe da Comissão de Assuntos Internacionais da Duma (câmara dos deputados na Rússia), Aleksêi Puchkov, um dos primeiros na Rússia a se manifestar.

“Castro provou que você pode passar 55 anos sendo alvo de pressão e guerra econômica dos EUA e enfrentá-los. E agora é o chefe de Estado dos EUA que está indo para Havana, e não o contrário”, acrescentou Puchkov em outra publicação.

O revolucionário cubano foi lembrado como “uma autoridade moral para a humanidade” nas palavras do líder do Partido Comunista russo, Guennádi Ziuganov.

“Um dos titãs da política morreu, um estadista, uma pessoa que lançou as bases da política ética, da política que se preocupa primariamente com o destino do homem comum, com uma vida decente para os trabalhadores e com um mundo feliz”, declarou Ziuganov.

A “marca profunda de Fidel Castro na história de toda a humanidade” também foi destacada pelo ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov. Segundo ele, Fidel segurou e fortaleceu seu país durante “o mais severo bloqueio norte-americano, em uma época de pressão colossal sobre ele, e ainda assim conduziu seu país para fora desse bloqueio por um caminho de desenvolvimento soberano e independente”.

Em seu perfil no Facebook, o primeiro-ministro russo Dmítri Medvedev recordou a conversa por telefone que teve com Fidel em agosto deste ano, quando o líder cubano celebrou seu 90º aniversário.

“Ele tinha grande interesse pelo que estava acontecendo no mundo, na Rússia. Até o último momento manteve a mente aguçada e muitas informações na cabeça”, disse.

Já o presidente do Partido Liberal Democrático da Rússia, Vladímir Jirinovski, descreveu Fidel como “um exemplo de fortaleza e coragem”, acrescentando que os anos que Cuba passou sob sua liderança “permanecerão notáveis”. Em seguida, Jirinovski previu que “em cinco a dez anos, Cuba entrará no esquema normal de um país de médio porte, o mesmo que a maioria dos países latino-americanos”.

Fidel (esq.) e Khruschov reunidos na ONU, em 1960 Foto: Getty Images/FotobankFidel (esq.) e Khruschov reunidos na ONU, em 1960 Foto: Getty Images/Fotobank

Reação nas redes

Paralelamente, as redes sociais foram tomadas por opiniões contrastantes sobre o líder revolucionário, e muitos criticaram-no por não conseguir erguer o país.

“Estou certo de que os panegíricos a Castro vêm agora de quem nunca esteve em Cuba. Eu estive. Principais impressões: pobreza, ruína, fraude”, escreveu o líder da oposição Aleksêi Naválni em sua conta no Twitter.

Em tom de crítica, o também oposicionista Vladímir Milov comparou o PIB per capita de Cuba (US$ 7.000) com o da vizinha Porto Rico (US$ 29.000), ressaltando que ambos os países haviam partido “do mesmo patamar”.

“Castro arruinou seu próprio país, arrastou uma região outrora rica ao estado das nações africanas mais pobres. Os medicamentos e os alimentos ainda são escassos  por aqui. Não há nenhum sinal móvel ou de internet normal aqui. As pessoas trabalham por uma mixaria, e a única alegria é roubar algo”, escreveu, em outubro passado, o proeminente blogueiro russo Iliá Varlamov.

As pessoas “sempre discutirão sobre quem Fidel Castro se tornou – um ditador sangrento ou um grande militante contra o imperialismo norte-americano – assim como discutem sobre Iossef Stálin ou Ivan, o Terrível”, escreveu o “Kommersant”.

O jornal russo lembra que, em 1953, no julgamento sobre a invasão ao quartel Moncada, no qual foi condenado a 15 anos de prisão, Castro disse:

“A história me absolverá”; essa frase se tornou uma famosa citação, mas décadas mais tarde, está claro que não haverá absolvição e que as discussões amargas entre castristas e anticastristas não acabarão mesmo quando Cuba se tornar um típico (ou quase típico) país caribenho”, concluiu o “Kommersant”.

Ainda assim, o principal legado de Fidel é, segundo o professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, Víktor Kheifets, a criação de “um modelo de política externa independente e soberana de Cuba.

Já seu outro legado, um regime político autoritário, é algo que nem mesmo muitos de seus partidários se orgulhariam, diz o acadêmico. “A economia cubana permaneceu monocultural: não importa o quanto as autoridades tentaram, elas não conseguiram superá-la. De fato, Cuba conseguiu sobreviver. Mas não acho que fosse o objetivo.”

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