Jovem encontra algozes de bisavô durante repressões de Stálin

24 de novembro de 2016 Aleksêi Timofeitchev, Gazeta Russa
Aos 34 anos, Denís Karagôdin buscou informações em arquivos soviéticos que os levaram à compilação de uma lista com dezenas de nomes dos algozes de seu bisavô - de Stálin ao motorista do NKVD. Caso ganhou grande repercussão no país, e agora Denís quer processar responsáveis.
RBTH
Coletivização, "Grande Expurgo", genocídios, limpezas étnicas e gulags levaram às mortes de milhões durante a era Stálin. Foto:wikipedia.org

"Pegamos eles todos! Todos!", escreveu há alguns meses na página dedicada a seu bisavô o morador de Tomsk Denís Karagôdin, de 34 anos. No post, o jovem informava ter conseguido receber do arquivo do FSB (órgão que substituiu a KGB), uma ata sobre o fuzilameno de 36 pessoas, entre as quais seu bisavô.

Mas o que chamou mais a atenção de Karagôdin foi que o documento continha "os nomes dos carrascos imediatos" de seu bisavô.

O camponês Stepan Karagôdin foi preso em Tomsk por funcionários do NKVD (o Ministério dos Negócios Internos da URSS), em 1937, durante o período do grande terror stalinista.

Stepan Karagôdin Foto: blog.stepanivanovichkaragodin.orgStepan Karagôdin Foto: blog.stepanivanovichkaragodin.org

Ele foi condenado ao fuzilamento pela então chamada "dobradinha" (a chefia do NKVD e o procurador da URSS) como agente e organizador do grupo de sabotagem espião do Japão.

Sua pena foi programada para execução em janeiro do ano seguinte. No final dos anos 1950, no período do degelo de Khruschov e da desestalinização, a figura de Stepan Karagôdin foi reabilitada.

Lista de carrascos

Denís Karagôdin começou a buscar os assassinos de seu bisavô ainda em 2012. Para tanto, pediu informações a diversos arquivos. No final das contas, compilou uma lista com dezenas de nomes.

Como "organizadores do assassinato" há funcionários de altos cargos hierárquicos do governo da URSS: Stálin, Môlotov, Vorochílov etc.

Mas a lista também tem pessoas de um nível bem diferente: o motorista da garagem do NKVD, por exemplo.

Karagôdin acredita que tenham responsabilidade pela morte de seu bisavô inclusive os datilógrafos que produziam documentos do NKVD.´

Alguns nomes, porém, trazem inscrições especiais, como resultado de suas investigações, e vêm em letras maiúsculas vermelhas: "CONFIRMADO! ALGOZ!"

Principal documento da pesquisa de Karagôdin é uma ata sobre a apresentação da sentença de fuzilamento pelo departamento municipal do NKVD em Tomsk. O jovem recebeu o documento neste mês de novembro apenas após requerê-lo, pela segunda vez, à administração do FSB na unidade federativa de Novossibirsk.

A ata foi assinada por três pessoas, todas indicadas por Karagôdin como algozes e executores indireto da sentença de fuzilamento.

A primeiro das três assinaturas é do auxiliar da chefia da prisão de Tomsk, Nikolai Ziriánov.

'Estendo a mão em reconciliação'

O anúncio sobre a pesquisa de Karagôdin foi amplamente difundido nas redes sociais. Tanto, que a neta de Ziriánov escreveu ao jovem.

"Já não durmo há alguns dias. Simpresmente não consigo. (...) Estou muito envergonhada por tudo, sinto-me fisicamente doente, simplesmente. E é amargo que eu não possa consertar nada, apenas me confessar parente de N.I. Ziriánov e relembrar seu bizavô na igreja", escreve a mulher em trecho que Karagôdin divulgou.

Ela também escreve que seu bisavô materno também morreu como resultado da repressão. "Em uma só família, há vítimas e algozes", lê-se em trecho da carta.

Em carta de resposta endereçada a "neta do algoz e assassino de Stepán Karagôdin", seu bisneto escreve: "Estendo a mão em reconciliação".

O jovem Karagôdin agora quer abrir queixas-crimes contra os assassinos de seu bisavô: 20 pessoas, que vão de Stálin ao motorista do NKVD, que figuraria como cúmplice.

"Esse grupo de pessoas em entendimento preliminar realizou assassinatos em massa", escreve Karagôdin.

Tarde demais?

A história de Karagôdin foi amplamente divulgada na Rússia, e muitos classificam sua pesquisa como um acontecimento simbólico.

"Ninguém, até agora, tinha tido a ideia de ir atrás do governo Stálin, com o código penal nas mãos, por meio de uma pesquisa particular sobre a morte de membros de sua família. O que esse jovem inteligente dos anos 2000 oferece como resposta à pergunta sobre 'o bom e o mal Stálin' é simbólico, e aumenta, em mim, a crença na humanidade", disse sobre o caso o comentarista da rádio "Kommersant FM", Stanisláv Kútcher.

Apesar disso, há quem acredite que a busca pelo destino do bisavô de Karagôdin tenha sido válida, mas não a compilação de uma lista de seus algozes.

Para publicitário Dmítri Olchánski, cujo bisavô também foi fuzilado nos anos de repressão "não é possível trazer ninguém de volta" e "não se pode mudar nada no passado".

"Não há nenhuma responsabilidade e penitência através das gerações. A penitência só pode ser feita por si próprio, e acho que está tarde para punir os assassinos do meu bisavô", diz. 

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