Adolescentes transmitem tiroteio ao vivo e depois se suicidam

16 de novembro de 2016 Oleg Egorov, Gazeta Russa
Além de comoção, tragédia em Pskov vem gerando polêmica nas redes sociais. Enquanto investigação prossegue, sociedade debate causas que levaram a ocorrido.
Diferentes versões envolvendo morte de jovens inundaram as redes sociais Foto:Periscope/denismurav

Transmissão on-line de suas últimas horas de vida, disparos contra policiais e parentes e, enfim, duplo suicídio. Dois adolescentes de 15 anos da região de Pskov, Kátia Vlássova e Denis Muraviev, haviam decido sair de casa devido a problemas com seus pais e, aparentemente, não pensavam em se suicidar – mas nada saiu como planejado.

A história virou manchete em diversas partes do mundo e, sobretudo, na Rússia, que jamais tinha presenciado algo parecido, exceto em filmes ou jogos de vídeo. Entrincheirados em uma casa de dois andares, os adolescentes dispararam da janela contra alguns policiais e transmitiram tudo pelo aplicativo Periscope, comparando-se a Bonnie e Clyde. E, no fim das contas, eles próprios relataram detalhes da tragédia.

Tragédia em streaming

Segundo relatou Denis Muraviev na transmissão ao vivo pelo Periscope (o arquivo foi excluído; apenas a transcrição foi mantida), os adolescentes tinham decidido sair de casa pois estariam fartos de seus pais: Kátia havia apanhado por ter ido dormir em uma amiga sem pedir permissão; já Denis, havia sacado dinheiro do cartão de crédito da mãe três dias antes.

O casal seguiu então para uma casa do padrasto de Kátia a 70 km de Pskov, onde o tutor mantinha armas dentro de um cofre. Após conseguirem abri-lo, os jovens então se apoderaram de um rifle de caça e outras armas. 


A essa altura, a polícia já estava a procura de Denis, que havia sido dado pelos pais como “desaparecido”. Ao fazer as buscas, os oficiais tentaram entrar na casa e, em meio a confusão, Denis atirou contra a mãe da Kátia com uma arma traumática.


Logo depois chegou um novo carro de patrulha policial, e Denis iniciou os disparos contra os agentes – deste vez, porém, com munição de verdade.

Fonte: YouTube/ГТРК Псков

“Acho que acertei um policial. Quando vir policial, atiro nele. Se acertar, são outros 15 anos de prisão”, disse Denis. “Não há nada a fazer! Entregar-se não faz sentido”, responde Kátia, que então ri e exclama que “agora a classe inteira está assistindo” [pelo Periscope].

“Se nós nos rendermos, eles vão nos matar”, continua Denis. “Se nos entregarmos, não vamos mais ver, irão nos transferir para diferentes cidades e escolas.”

Os jovens dizem então estar sem munição, embora seja possível observar em outro vídeo que ainda havia muitos cartuchos. Em dado momento, a transmissão é cortada, e um grupo especial da polícia entra na casa, onde encontra os adolescentes sem vida.

Segundo a agência de informação de Pskov, Denis teria primeiramente atirado em sua namorada e depois em si próprio. Nas redes sociais, ambos os adolescentes deixaram mensagens idênticas aos pais, acusando-os de terem destruído “sua vida e sua mente”.

Foto: denismyr18/vk.comFoto: denismyr18/vk.com

Reação das autoridades

A defensora dos direitos das crianças Anna Kuznetsova, que descreve a situação como uma “terrível tragédia”, está participando dos trabalhos da comissão regional de menores de idade para “estabelecer as circunstâncias e os detalhes do ocorrido”.

Também qualificando como o caso como “tragédia”, o governador da região de Pskov, Andrêi Turtchak expressou condolências às famílias e confiança de que os investigadores conseguirão descobrir as causas do suicídio e do ataque aos policiais.

De acordo com os investigadores, a tese de suicídio não coincide com as palavras dos jovens durante a gravação. Isso porque, a versão de que Denis disparou contra Kátia e depois se matou vai na contramão da conversa entre os adolescentes, que, no decorrer da transmissão, alegam não haver mais cartuchos.

A polêmica estendeu-se, assim, pelas redes sociais. “Como sabemos que os adolescentes se mataram e não foram baleados durante a invasão à casa? A polícia usou armas para entrar?”, questionou o jornalista Serguêi Dorenko, em seu Twitter.


A Guarda Nacional garantiu, no entanto, que os agentes das unidades especiais de resposta rápida não abriram fogo dentro da casa, aumentando também as suspeitas de que adolescentes pudessem estar mentindo sobre a ausência de cartuchos.

“Não consigo acreditar que a polícia tenha atirado nas crianças. Ou bem consigam que suas versões correspondam, ou o promotor começará a fazer perguntas”, escreveu Iúri Kunikov, ex-inspetor da polícia, em seu perfil no Facebook.

À procura de culpados

Diante da perplexidade dos fatos, várias versões foram propostas nas redes sociais e entre especialistas para explicar o incidente.

Segundo a psicóloga especializada em adolescentes, Irina Sokovnia, os jovens poderiam ter entrado uma seita ou sofrer de doenças mentais.

Já a senadora Elena Mizúlina, conhecida por suas opiniões de cunho conservador, relacionou, em seu Twitter, o episódio aos jogos de tiros.

Muitas pessoas, porém, acreditam que o motivo da tragédia seria justamente a violência familiar à qual os adolescentes diziam ser submetidos. “É um problema de educação infantil. As crianças não deveriam ter acesso a armas. Os pais são os únicos responsáveis”, escreveu Gregôri Zagradski, no Twitter.

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