Daguestão, uma república contra o extremismo

Região montanhosa é palco de operações antiterrorismo que assustam moradores locais.

Região montanhosa é palco de operações antiterrorismo que assustam moradores locais.

Reuters
Há anos no epicentro das atividades terroristas do país, Daguestão tem centenas de mortos todos os anos em buscas a extremistas.

Um povoado repleto de montanhas no Daguestão, Guimri é berço de dois lendários líderes muçulmanos, Shamil e Gazimagomed, que ofereceram feroz resistência às invasões do Império Russo no século 19 e se tornaram símbolo de orgulho para o povo local.

Mas, desde a década de 1990, encontram-se ali diversos grupos armados, o que leva as autoridades russas a realizar frequentes operações antiterroristas.

Infográfico: RG

Em junho passado, por exemplo, uma dessas ações resultou na morte de dois terroristas. Então, os locais elogiaram a operação, apesar de nem sempre serem favoráveis a medidas do gênero.

“Eles foram muito profissionais. Pelo visto, tinham informações confiáveis. É claro que não dá para comparar essa operação especial com a de Vrêmeni [um povoado vizinho]. A situação lá foi muito assustadora”, diz um rapaz local chamado Saguid.

Terror dos dois lados?

Em 18 de outubro de 2014, anunciou-se que Vrêmeni seria palco de mais uma operação contraterrorista. A intervenção no povoado durou mais de dois meses. Nesse intervalo, as forças táticas afirmam ter eliminado sete terroristas. Mas, para tanto, 16 casas particulares sofreram explosões, e as bases de vários edifícios residenciais foram danificadas em busca de esconderijos de extremistas.

Como resultado, pelo menos três prédios foram abandonados, sob risco de desabamento. Outros sete foram danificados e correm os mesmos riscos, mas os proprietários dos apartamentos se recusam a deixá-los, fazendo por si próprios os consertos que julgam necessários.

Em Guimri, moradores participam de festival de tradições Foto: TASS

“Antes de anunciarem a operação, nunca se ouviu um tiro sequer por aqui. Nos afligiram por dois meses e agora não nos ajudam com nada”, diz a moradora de um dos prédios que não quer ser identificada.

Os moradores de Vrêmeni foram compelidos a tirar impressões digitais e amostras de DNA e a desfilar diante de uma câmera de vídeo que registrava o modo de caminhar de cada um.

Danos materiais

Apesar da humilhação, os locais estão mais indignados com os danos causados aos bens materiais: as forças de segurança, segundo eles, destruíram suas casas, jogaram seus móveis na rua, picharam as paredes e marcaram suas portas com inscrições feitas a faca.

Em carta ao presidente Vladímir Pútin, os moradores da região se queixaram da postura tomada e pediram sua intercessão. Perguntada pela Gazeta Russa, a Procuradoria do Daguestão afirmou que o apelo está sendo analisado, mas que nenhuma decisão foi tomada.

Os investigadores, porém, apoiam os danos causados, já que terroristas foram encontrados em abrigos subterrâneos fortificados, onde havia também “um grande número de artefatos explosivos improvisados, armas de fogo e munições”, lê-se em seus relatórios.

“Devido à ameaça de explosão espontânea, os explosivos foram destruídos no local, causando danos aos edifícios que os abrigavam, assim como a edifícios próximos”, disse a promotoria à Gazeta Russa.

“As forças de segurança costumam justificar suas ações assim. Mas voltar para sua casa e encontrar pichações cheias de ofensas nas paredes e nas portas dá margem a dúvidas. As ações parecem mais um tipo de punição que uma luta contra o extremismo”, afirma a consultora da ONG International Crisis Group na Rússia, Varvara Pakhômenko.

Números divergentes

Apesar de as autoridades locais afirmarem que os ataques terroristas na região têm diminuído nos últimos anos, as estatísticas do governo mostram aumento.

Em julho, o presidente do Daguestão, Ramazan Abdulatipov, disse que apenas 12 crimes terroristas foram registrados na república em 2014, contra os 300 de 2013.

Já o ministro daguestanês do Interior, Abdurachid Magomedov, anunciou, em março deste ano, que, no mesmo período, “20 atos de sabotagem e terrorismo envolvendo o uso de dispositivos explosivos foram evitados, e 161 bandidos foram mortos enquanto ofereciam resistência armada”.

De acordo com o Gabinete do Procurador-Geral, o número de crimes de caráter terrorista no Daguestão cresce: 220 em 2011, 295 em 2012, 365 em 2013, 472 em 2014 e 307 nos primeiros cinco meses de 2015.

Já o jornal “Kavkázki Úzel”, por seus próprios cálculos, aponta para uma queda, em 2014, de 50% no número de conflitos armados na região. Segundo o veículo, no ano passado, 208 morreram em decorrência desses e 85 ficaram feridos, contra os 341 mortos e 301 feridos de 2012.

 

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