Estado Islâmico aproveita ofensiva em Aleppo para retomar Palmira

13 de dezembro de 2016 Nikolai Litôvkin, Gazeta Russa
Libertação de cidade histórica era considerada ponto alto de operação russa na Síria. Segundo especialistas, vigilância defasada sobre a área e pausas humanitárias constantes contribuíram para reagrupamento e contraofensiva de terroristas.
Palmira é considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco Foto:AP

Militantes do Estado Islâmico (EI) aproveitaram o envolvimento do Exército sírio e da força aérea russa em Aleppo para lançar uma contraofensiva na região central do país e conseguiram retomar a cidade histórica de Palmira. A libertação anterior dessa área era vista por Moscou como um dos maiores sucessos de sua campanha na Síria.

O anúncio foi feito no último domingo (11) pelo governador da província de Homs, Talal Barazi. A ofensiva terrorista havia começado três dias, enquanto as tropas sírias avançavam sobre Aleppo, onde já controlam 96% do território.

A contraofensiva do Estado Islâmico obrigou a aviação russa a mudar urgentemente o foco de sua atenção para Palmira. Nas primeiras horas de  domingo, os ataques aéreos conduzidos pela aviação de longo alcance da Rússia (com bombardeiros Tu-22M3) mataram mais de 300 militantes e destruíram 11 tanques e veículos de combate.

De acordo com os militares russos, há atualmente mais de 4.000 militantes do EI em Palmira, além de artilharia, veículos blindados e carros-bomba.

Golpe contra o prestígio

O EI foi expulso da cidade de Palmira em 27 de março de 2016 graças ao apoio das tropas russas. A operação foi então anunciada como um dos principais sucessos da campanha da Rússia na Síria.

Para marcar a ocasião, a orquestra do Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, liderada pelo renomado maestro Valéri Guerguiev, chegou a realizar um concerto no anfiteatro local construído pelos romanos ainda no século 2 a.C.

“A perda de Palmira para os terroristas do EI foi um duro golpe para o prestígio da Rússia”, disse, entrevista à agência de notícias Interfax, o ex-chefe do Estado-Maior da Rússia, general Iúri Baluievski.

No entanto, para Andrêi Suzdaltsev, pesquisador sênior associado na Escola Superior de Economia em Moscou, acredita que, por ser uma derrota tática, e não estratégica, a perda da cidade histórica não terá impacto sobre o andamento geral da guerra civil.

“Os oponentes da Rússia no exterior apresentarão a situação como se Moscou tivesse deixado a peteca cair. Ainda assim, o Ocidente também não tem muito a se orgulhar em sua luta por Mosul. A questão agora é como nossos políticos e os estrangeiros jogarão com suas cartas”, disse Suzdaltsev à Gazeta Russa.

Fuga de terroristas

Segundo Baluievski, Palmira recaiu nas mãos dos terroristas porque a liderança da força aérea russa não estava suficientemente vigilante.

“Os sírios provavelmente não têm as capacidades que temos. Onde estávamos olhando para permitir que Palmira fosse retomada pelo EI?”, questiona o general.

Os especialistas militares entrevistados pela Gazeta Russa argumentam que o Estado Islâmico conseguiu recapturar Palmira, em grande parte, graças às pausas humanitárias impostas durante o conflito para permitir que civis escapassem.

“Eu compreendo que é necessário garantir a segurança para os civis, tirá-los das áreas de fogo cruzado. Mas quando essas pausas humanitárias duram semanas, os militantes terroristas conseguem se recuperar”, acrescenta Baluievski.

“As constantes iniciativas de cessar-fogo permitem que os militantes se reagrupem, restabeleçam os canais de fornecimento e de comunicação e, depois disso, lançem uma contraofensiva”, diz Dmítri Safonov, observador militar do jornal “Izvêstia”.

Durante a última pausa humanitária em Aleppo, mais de 1.500 pessoas deixaram a cidade, segundo Safonov. “Parecia que a maioria deles eram terroristas. Eles não foram para o Iraque ou Turquia, eles permaneceram na Síria”, afirma.

Reconquista sangrenta

O general Iúri Baluievski acredita que os exércitos russos e sírios serão capazes de recuperar o controle sobre Palmira, embora a luta pela cidade possa se transformar em um “mar de sangue”. Isso porque, apesar de os bombardeiros da Rússia focarem nos subúrbios onde o EI está concentrado, os terroristas fugirão para áreas residenciais.

“Os combates voltarão a acontecer dentro dos limites da cidade. Os bairros residenciais de Palmira são formados por prédios baixos que ficam próximos uns dos outros. Cada quilômetro quadrado será reconquistado com o sangue de soldados e civis sírios, que serão usados pelos terroristas como escudo humano”, diz Safonov.

A fase ativa dos confrontos deverá ocorrer de meados de dezembro até o final de janeiro, prevê Anatóli Tsiganok, chefe do Centro de Previsões Militares e membro associado da Academia Russa de Ciências Militares.

“Em seguida, até meados de março, haverá fortes tempestades de areia na Síria, o que retardará as hostilidades na cidade e arredores”, disse Tsiganok à Gazeta Russa.

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