“Trump pode reconhecer a Crimeia como russa”, afirma Ian Brenner

11 de janeiro de 2017 Eurasia.Expert
Para especialista, o mundo viverá aprofundamento da recessão geopolítica neste ano, sem liderança global, mais fragmentado, onde um governo Trump poderá aproximar-se mais de Pútin pela luta anti-terrorismo e onde a Europa parecerá mais fraca e mais dividida.
Ian Bremmer
Bremmer: “Rússia ocupa uma posição diferente após a eleição de Donald Trump” Foto:Ian Bremmer/Facebook

Cientista político especialista em relações internacionais, o americano Ian Brenner, 47, é também fundador e presidente da Eurasia Group, prestigiada consultoria especializada em fazer análises de risco político global. A Eurasia tem escritórios em várias cidades do mundo, incluindo São Paulo. Autor de best-sellers, cujo mais recente é “Superpower: Three Choices for America's Role in the World”, Brenner explica, na entrevista publicada pelo Eurasia Expert, as principais conclusões do recém publicado relatório “Top Risks 2017: The Geopolitical Recession”.

Eurasia Expert: Vocês chamam 2017 de um ano de “recessão geopolítica”. Qual é o ponto crucial desta tendência? Devemos falar em um mundo multipolarizado ou não-polarizado?

Ian Brenner: Definitivamente é uma ordem não polarizada, que eu chamo de “G-zero”para distinguir da ilusão que o G7 mantém algo da influência que gozou há uma década atrás ou que o G20 é uma instituição que funciona. Uma ordem não-polarizada criou uma recessão geopolítica. Não é uma ordem sustentável no longo prazo, mas no momento, nenhum estado ou nenhuma aliança de estados pode assumir a liderança que os EUA deixaram de exercer. Os europeus estão enfrentando uma dúzia de obstáculos agora, tanto internos como externos. A China tem uma influência econômica no mundo, sua habilidade em projetar seu poder político limita-se a sua região. A Rússia é um grande ator, militarmente e economicamente, dentro da ex-União Soviética (excluindo os Balcãs), e também no Oriente Médio. Mas a Rússia não tem o poder militar da União Soviética, aliados capazes ou apelo ideológico. Temos hoje um mundo quase sem liderança global. Hoje, ninguém impõe regras enquanto elas ainda são testadas.

Eurasia Expert: No mesmo relatório Top Risks de 2016, Pútin foi citado 10 vezes (em 2017 apenas 4), a Rússia foi mencionada 21 vezes (em 2017, apenas 10). Isso significa que a Rússia não é mais considerada uma ameaça para o Ocidente?

Ian Brenner: A Rússia ocupa uma posição diferente após a eleição de Donald Trump. Trump quer aproximar-se e, no mínimo no início de seu governo, é possível que consiga. Mas isso não significa que a Rússia não vá ameaçar ou trabalhar para reduzir o poder de outros países ocidentais. As eleições na França, Alemanha e Holanda oferecem novas oportunidades para o Kremlin causar confusão. A Ucrânia, os Balcãs e a Polônia permanecem no limite. Agora, no entanto, Pútin pode ganhar mais terreno se evitar, em vez de provocar, conflitos com Washington. Trump e Pútin têm mesma posição quando o assunto é Síria e ataques terroristas; Trump deve provocar outros em 2017. A Rússia vai ter menos razões para ser do contra.

Eurasia Expert: É senso comum dizer que a os EUA e a Rússia têm diferenças irreconciliáveis sobre o futuro do uso do espaço pós-soviético (as questões da Ucrânia e a OTAN). Trump e Pútin poderiam chegar a um acordo sobre a Ucrânia, por exemplo? Se sim, que tipo de acordo?

Ian Brenner: Isso é muito mais possível de acontecer do que com Obama. O presidente Obama sinalizou apoiar a autodeterminação para a Ucrânia, mas ele nunca preparou-se para aceitar os custos e os riscos que acompanham ações que realmente poderiam ter feito alguma diferença. Persuadir o Congresso americano a sancionar a Rússia é muito factível. Mas Trump não vê valor algum nos EUA ativamente defenderem um país sobre o qual ele não sabe nada nem se importa quando o Pútin pode ser um aliado na luta anti-terrorismo. É bem possível que Trump reconheça a Crimeia como russa. Duvido que Trump vá suspender as sanções no vácuo; ele provavelmente vai mover as dicussões para distanciar-se do acordo de Minsk para uma postura mais produtiva, onde pequenos passos vão reduzindo aos poucos as sanções. Ou seja, não vejo necessariamente um acordo, mas uma redução das sanções. 

Eurasia Expert: Qual é a probabilidade de testemunharmos uma nova “EU exit” [referência ao Britain-exit, Brexit, saída da União Europeia] em 2017?

Ian Brenner: É uma probabilidade muito baixa, a menos que a crise econômica na Grécia exploda. O processo de Brexit apenas começou, e mesmo uma vitória de Marine Le Pen na França não levará a uma saída rápida, porque seu partido não teria o peso necessário para aprovar no congresso nacional ou no senado a realização de um referendo. E é a mesma história na Itália. As eleições antecipadas poderão dar a vitória ao movimento das Cinco Estrelas, mas eles não serão capazes de formar um governo. Mas, dito isso, a Europa parecerá mais fraca e mais fragmentada ao final deste ano, porque será um ano de eleições brutais na França, na Holanda, na Alemanha — e, talvez, na Grécia e na Itália.

Com o portal Eurasia.Expert
 

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