Prisão de ministro é ataque ao liberalismo, dizem especialistas

Para cientistas políticos, liberais correm perigo, entre eles o premiê Medvedev. Ministro do Desenvolvimento Econômico, Aleksêi Uliukaev, foi detido na última terça-feira (15), acusado de extorsão em um acordo comercial entre as petrolíferas Rosneft e Bashneft.
Alexei Ulyukayev
O ministro Uliukaev era o porta-voz dos liberais que entraram para o sistema, e oriundo da equipe de Egor Gaidar. Foto:Maksim Blinov/RIA Novosti

A detenção, na última terça-feira (15) do ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Alksêi Uliukaev, gerou polêmica no país inteiro, com cientistas políticos apontando para inconsistências no caso.

"Ele telefonou várias vezes, para diversas pessoas, entre elas, funcionários públicos de altos cargos e agentes das forças de segurança. Ele perguntava para todo mundo a mesma coisa: 'O que está acontecendo aqui?'", disse uma testemunha da operação especial que levou à detenção de Uliukaev. 

De acordo com o Comitê Investigativo, o chefe da pasta foi detido devido a extorsões feitas em um montante equivalente a US$ 2 milhões.

Uliukaev foi pego em flagrante ao receber dinheiro para avaliar positivamente um contrato de aquisição de participação na Bashneft pela estatal Rosneft.

É a primeira vez, na Rússia pós-soviética, que um ministro é preso e acusado. Por enquanto, Uliukaev está sendo mantido sob prisão domiciliar.

De acordo com fontes da agência Ria Nôvosti, Uliukaev esteve sob investigação do FSB (órgão que substituiu a KGB) por mais de um ano. O porta-voz presidencial também afirmou que Vladímir Pútin sabia das investigações.

O político, considerado porta-voz dos liberais no sistema, estava no governo há 11 anos, e foi vice-presidente do Banco Central da Rússia por outros nove.

Como chefe da pasta, ele passou a lutar por reformas contra o controle do governo sobre a economia, era oponente do Ministério das Finanças e responsável pela execução do Orçamento federal, além de emitir previsões duras sobre a economia - ainda em outubro, ele previa uma estagnação de 20 anos.

Inconsistência

Especialistas citam dois fatores que geram dúvidas sobre a atuação ilegal de Uliukaev. Em primeiro lugar, o valor pelo qual foi fechado o trato entre as duas petrolíferas seria incontestável.

"Ninguém, nem especialistas, nem oficiais, tem dúvidas de que os 50,0755% da Bashneft valem 329 bilhões de rublos [5 bilhões de dólares], que esse é o valor de mercado. Por isso, levar propina para estabelecer o valor de mercado é uma acusação muito estranha", afirma o ex-ministro Aleksandr Chokhin.

O principal pretendente ao pacote de controle era a maior companhia privada de petróleo do país, a Lukoil. Mas seu presidente, Vaguit Alikperov, afirmou que a avaliação de US$ 4,67 bilhões feita pela auditoria da Ernst & Young era muito superestimada.

Como resultado, a única companhia a manter interesse na compra foi a Rosneft, presidida por Ígor Sétchin, e a venda foi feita sem concorrência.

A proximidade de Sétchin com o presidente do país também levantou questões sobre a prisão.

"O Ígor Sétchin é um velho amigo do Pútin, e não há motivos para ele brincar com essas relações", diz o diretor do Conselho Independente para Estratégias Nacionais, Valéri Khomiakov.

Além disso, o presidente do Instituto de Pesquisas Sócio-Econômicas, Aleksêi Zudin, relembra que não há queixas contra a Rosneft no caso, e que a transação correu de maneira legal.

"Mas se a transação tivesse sido feita com base em resoluções tomadas devido à propina, ela seria legal? E há também o oposto: se a transação foi legal, significa que a Rosneft ofereceu mais que a concorrência. Mas aí a propina fica sem sentido", diz Zudin.

Super acordo

O porta-voz da Rosneft, Mikhail Leontiev, declarou que a companhia considera que o acordo não deve sofrer nenhuma alteração com a detenção de Uliukaev.

"É um acordo brilhante, super correto... [O Comitê Investigativo], acho, deixou bem claro que não há e não pode haver nenhuma queixa contra a Rosneft", disse.

Mas o caso tem levado especialistas a questionar um possível golpe contra os liberais do país.

"Em primeiro lugar, o Uliukaev é um dos principais porta-vozes dos liberais no sistema no país. Em segundo, ele responde pela escolha do curso sócio-econômico, que gera críticas a tempos por parte dos opositores dos liberais", diz o diretor do Centro de Pesquisas de Ciências Políticas da Universidade de Finanças do Governo Russo, Pável Salin.

O golpe, assim, seria também contra o primeiro-ministro do país, Dmítri Medvedev.

"Mas o Medvedev corre muito menos perigo. O Uliukaev veio da equipe de [Egor] Gaidar [principal ideólogo das reformas econômicas da década de 1990]", conta Salin.

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