Pútin está remodelando elite política russa, diz relatório

À medida que ‘velha guarda’ do Kremlin perde força junto à população, presidente busca novas alianças. Analistas acreditam que isso pode implicar uma redefinição ou até mesmo desmantelamento do sistema de governo existente.
Pútin (centro) acompanhado do ministro da Defesa Serguêi Choigu (esq.) Foto:AP

O presidente da Rússia, Vladímir Pútin, está organizando um novo círculo de conselheiros e seguidores para consolidar o sistema político que criou, concluíram os autores de um novo relatório divulgado pela holding Minchenko Consulting.

Baseando-se no princípio de que, até 2012, Pútin formou um instrumento de governo informal separado que, de muitas maneiras, assemelha-se ao Politburo Soviético, o documento, intitulado Relatório Politburo 2.0, vem sendo atualizado regularmente para analisar a evolução das forças nos escalões mais altos do governo russo.

De acordo com o relatório, os membros do Politburo seriam as autoridades sênior do Kremlin, cada qual responsável pela sua administração e esfera, e o próprio Pútin estaria encarregado de chefiar o chamado Politburo 2.0 como um árbitro, resolvendo todas as disputas e, ocasionalmente, redistribuindo a influência entre os membros.

“O termo Politburo 2.0 indica uma rede informal para coordenação de interesses dos principais clãs da elite, na qual Pútin é árbitro e figura mais influente”, explica um dos autores do relatório, Kirill Petrov.

Segundo o consultor, este “órgão informal de poder” seria, portanto, o principal mecanismo para a resolução de contradições organizacionais e setoriais no governo.

No relatório recente, os autores discorrem não apenas sobre as mudanças nas posições dos membros do Politburo 2.0, mas se questionam sobre as possibilidade de o presidente desmantelar o sistema de governo existente ou, pelo menos, redefini-lo.

Refém de sua comitiva

O relatório menciona o reagrupamento de forças nos escalões mais altos e médios da nomenklatura (como se designava a ‘burocracia’, ou ‘casta dirigente’ da URSS) russa.

Nesse aspecto, os pesquisadores destacam a demissão de representantes da “velha guarda” de Pútin, como o ex-diretor da administração presidencial, Serguêi Ivanov, e o ex-presidente da estatal Russian Railways Vladímir Iakunin; a intensificação da agenda anticorrupção e sua aplicação na elite política, incluindo contra departamentos anticorrupção; a rotação e as reformas nas estruturas de aplicação da lei; e a renovação dos deputados parlamentares na Duma do Estado.

Segundo sugere o documento, uma das razões para essas mudanças seria “a vontade de Pútin de não se tornar refém de sua própria comitiva”.

O presidente, afirmam os autores do relatório, estaria tentando compor, de forma autônoma e competitiva, sua nova coalizão eleitoral e uma futura configuração de poder. “E para isso é necessário enfraquecer o próprio Politburo 2.0”, explicam.

A maioria dos membros desse grupo já estariam, inclusive, enfraquecidos, enquanto o ministro da Defesa, Serguêi Choigu, se tornou mais forte durante a guerra na Síria, assim como o diretor da renovada Guarda Nacional, Víktor Zolotov.

Jovens tecnocratas à frente

De acordo com o relatório, Pútin está atualmente estudando as várias opções de “apoio ideológico e recrutamento de oficiais” para seu próximo mandato presidencial.

Os autores explicam que o presidente está testando jovens tecnocratas (entre eles o novo chefe da administração presidencial Anton Vaino, e o ministro da Indústria e Comércio Dmítri Manturov), ‘príncipes" de famílias de elite que se posicionam como tecnocratas (como o governador da região de Moscou Andrêi Vorobiov) e pessoas próximas a ele (a exemplo o governador da região de Tula, Aleksêi Diumin, que trabalhou na guarda presidencial), bem como ativistas sociais e do partido.

“Considerando as últimas decisões, Pútin está usando como ponto de referência seu primeiro mandato, no qual conduziu uma série de reformas econômicas e normalizou relações com o Ocidente”, lê-se no relatório.

Diálogo com o Ocidente

Uma das previsões que os autores do relatório fazem é que, com o fracasso das recentes tentativas de estabelecer um diálogo com o Ocidente, as pessoas do governo que terão potencial são aquelas que apresentarem possibilidade de “conduzir uma comunicação efetiva com a Europa e os Estados Unidos”.

As figuras mais expressivas são, nesse caso, o diretor do Centro de Desenvolvimento Estratégico, Aleksêi Kúdrin, e o ex-chefe da administração presidencial Aleksandr Volochin.

Segundo o analista político Aleksêi Makarkin, o sistema se baseia agora não apenas no princípio do controle e equilíbrio. “Pútin não precisa de clãs poderosos. Assim que o objetivo é atingido, os oficiais podem ser dispensados”, afirma.

Com o jornal on-line Gazeta.ru

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