‘Fake news’ podem se tornar rotina em 2017

12 de janeiro de 2017 Vladímir Mikheev, jornalista
Relatório com acusações publicado pelo BuzzFeed, sugerindo que o Kremlin manipula o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, revela a estratégia que os adversários do diálogo com a Rússia perseguirão na Europa ao longo deste ano.
Opinião
Tentativa de minar retomada de relações EUA-Rússia pode estar por trás de campanha difamatória Foto:Reuters

A coleção de memorandos, de 35 páginas no total, compilada por um ex-oficial da inteligência britânica – que supostamente colaborava com opositores políticos de Trump – contém acusações potencialmente prejudiciais relacionadas às negociações pessoais e financeiras do presidente eleito dos EUA.

O dossiê sugere, por exemplo, que Moscou possui cópias originais das declarações de impostos da Trump, e que estas seriam devastadoras para sua reputação e negócios. O documento inclui ainda suposições sobre interesses comerciais de Trump na Rússia e alega que a inteligência russa poderia ter “filmado o futuro presidente numa orgia enquanto estava na Rússia” e agora estaria usando a gravação para chantageá-lo.

Fato é que os memorandos circulavam por Washington há meses (o dossiê original teria surgido na metade de 2016), mas só foram divulgados às vésperas da tomada de posse por Trump – já na próxima sexta-feira (20). Coincidência? Nenhuma.

Ainda mais intrigantes são as acusações que se referem a figuras-chave próximas ao presidente eleito dos EUA, que supostamente se encontraram com autoridades russas sob circunstâncias não reveladas. Isso levou a “fonte” a supor que o motivo por trás do encontro fosse uma conspiração contra a então candidata Hillary Clinton ou até mesmo uma tentativa de minar a democracia americana.

Por essas e outras, as alegações têm caráter, no mínimo, duvidoso. O jornal europeu “Politico”, por exemplo, ressaltou que os detalhes que “os detalhes dessas revelações permanecem obscuros e não confirmados”.

Um deles fica evidente com a denúncia contida no relatório de que Michael Cohen, advogado da Organização Trump, se reunira com representantes do governo russo em Praga. Cohen, entretanto, publicou uma foto de seu passaporte escaneado com a seguinte legenda: “Eu nunca fui a Praga em minha vida”.

Campanha difamatória

A motivação do editor-chefe do BuzzFeed, Ben Smith, ao publicar o relatório é bastante questionável. Após a polêmica, ele se deu ao trabalho de explicar sua atitude à redação. “Para que os americanos possam se decidir”, justificou.

No entanto, Smith também admitiu que provar as acusações exigiria o depoimento de testemunhas “silenciadas” (por quem?) e que algumas alegações são “inviáveis”.

Soube-se também que os repórteres do BuzzFeed tanto nos EUA como na Europa investigaram os fatos, mas não foram capazes de apurar ou descartá-los por completo.

É então surge a dúvida: qual o benefício para o público nos Estados Unidos e de outras parte do mundo de obter acesso a afirmações não confirmadas que podem servir apenas para deslegitimar Trump às vésperas de assumir o cargo?

Além disso, o processo “obscuro”, como qualificado como jornal “Politico”, não se enquadraria na vilipendiada categoria de “fake news” (notícias falsas)?

Mais uma vez, assim como no caso da invasão não comprovada por Moscou aos computadores da Convenção Nacional Democrática, a intenção dos agentes em torno da atual administração americana não era tanto buscar a verdade, mas lançar uma sombra de dúvida sobre as políticas externas definidas pelo presidente eleito.

As alegações “devem abalar todos os americanos”, declarou Neera Tanden, presidente do Centro para o Progresso Americano, que, por sinal, é antiga aliada de Hillary.

Para os comentaristas entrevistados pelo “Politico”, porém, o propósito da publicação era “fornecer munição para os críticos que têm esperança de bloquear o realinhamento planejado de Trump com a Rússia, que temem que Trump possa conceder mais liberdade a Moscou na Síria, reconheça a anexação da Crimeia, suspenda as sanções dos EUA, e até mesmo reduza a presença da Otan na Europa Oriental”.

A ideia é que a agenda alternativa de política externa de Trump seja construída baseada no diálogo com Moscou. Assim, apresentar o presidente eleito como um fantoche do Kremlin ou um cliente confiável dos oligarcas russos não só sabota sua legitimidade, mas também limita as chances de “reset” nas relações com a Rússia.

Eleições na Europa

Levando em conta que os primeiros disparos na guerra da desinformação já foram disparados, os estrategistas políticos de Moscou devem seguir os conselhos do ministro das Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, segundo o qual o Reino Unido deveria adotar uma política “vigilante” em relação à Rússia.

Por outro lado, Johnson vem recuando em seus pronunciamentos belicosos anteriores. Apesar de reiterar que a Rússia “está à altura de todos os tipos de truques sujos”, o britânico admitiu, em um encontro com oficiais do futuro governo Trump, que “seria tolice demonizar ainda mais a Rússia ou empurrá-la para o canto”.

Embora soe tranquilizador, os clãs políticos neoliberais da Europa não aceitariam essas táticas, já que o aumento da popularidade dos movimentos inclinados a restabelecer a soberania estatal constitui uma ameaça existencial ao conceito de mundo globalizado, com países privados de raízes culturais e identidade nacional.

Nas próximas eleições em 2017 – na Holanda, França e Alemanha –, é possível que se veja um aumento na popularidade de partidos não convencionais, porém mais alinhados com as necessidades das pessoas e a realidade como um todo.

O medo de perder eleitorado e, eventualmente, o poder para forças políticas alternativas poderá induzir os opositores do ressurgimento do “Estado nacional” a intensificar a demonização da Rússia e do próprio presidente Vladímir Pútin – para explicar por que sua credibilidade está gradualmente diminuindo.

Mais perigosa ainda é a probabilidade de que campanhas à base de “fake news” sejam cada vez mais usadas para desafiar os resultados das eleições se não se encaixarem nas expectativas dos líderes do “projeto globalista”.

A cruzada de desinformação dirigida à Rússia, que foca na busca de inimigos estrangeiros (lembrando os “Vermelhos sob a cama” dos anos 1950) e agentes de influência do Kremlin, dá credibilidade a essa previsão: a campanha de caça às bruxas irá provavelmente dominar as eleições de 2017 na Europa.

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