Donald Trump, o Gorbatchov americano?

18 de novembro de 2016 Marcelo Montes, analista político
Eleição do novo presidente dos Estados Unidos pode ter mudanças imprevisíveis na ordem global e ser o início do fim do domínio americano em todo o mundo.
Opinião
EUA de Trump X URSS de Gorbatchov: o alto custo da revitalização Foto:AP/Reuters

A teoria realista, uma das mais influentes na disciplina das Relações Internacionais, analisa apenas as mudanças (pouco frequentes) na estrutura do poder internacional.

Desse modo, as variações de poder registradas em nível interno ou doméstico não têm grande significado nem relevância, digamos. Por essa teoria, a Venezuela sob o comando de Chávez, a Rússia liderada por Pútin e os EUA com Obama na Casa Branca não moveram ou movem o amperímetro do poder mundial. Tampouco tiveram efeito o 11 de setembro ou o Estado Islâmico (EI). Os autores realistas clássicos, como Morgenthau, Mearsheimer e Kissinger, rejeitam o conceito unipolaridade dos EUA e, pelo contrário, acreditam em acordos que estabelecem um equilíbrio de poder entre as grandes potências, como os países do Conselho de Segurança da ONU.

Os construtivistas, no entanto, acreditam na influência que as mudanças internas sobre a ordem internacional. Foi a ascensão de Gorbatchov como chefe da União Soviética – e não o papa João Paulo 2º, Reagan nem o fiasco soviético no Afeganistão – que atestou a certidão de óbito da ordem bipolar erguida após a Segunda Guerra Mundial. Os realistas não perceberam e, de fato, subestimaram-no como um fato nacional. A estrutura do poder mundial mudou significativamente há 30 anos, mas, desde os anos 50, não foram poucos os intelectuais soviéticos, condenados ao ostracismo, que previram o declínio do país. Apesar das intenções de Gorbatchov de engrandecer a URSS, o que ele conseguiu foi implodi-la.

O triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos tomou todos de surpresa, assim como a própria ascensão de Gorbatchov. Fala-se há tempos sobre a decadência norte- americana, talvez desde a época de Paul Kennedy e seu brilhante trabalho sobre a ascensão e a queda de impérios na Guerra Fria.

Immanuel Wallerstein destaca que a forma em que se materializou o 11 de setembro –atacando o núcleo do poder norte-americano com aviões sequestrados – demonstra que o declínio do país começou há muito tempo. E há outros indicadores que sugerem isso: a obsessão de parte da população por armas, as enormes desigualdades, falhas militares no Oriente Médio, ou a mediocridade dos líderes desde Ronald Reagan.

Muitos se preocupam hoje com as ‘luzes vermelhas’ que piscam com os discursos de Trump por todo o mundo: profetizam guerras comerciais, muros por todos os lugares, mais xenofobia, mais racismo, mais protecionismo e, assim como no período entre guerras, esse tipo de Hitler americano, se não for contido institucionalmente - com até mesmo um potencial impeachment –, poderá provocar conflitos bélicos mais graves.

No entanto, também poderia haver outro resultado; algo como 1989, porém ao reverso e com efeitos mais benevolentes. Desta vez, afetaria os próprios EUA. As políticas de Trump poderiam gerar novas alianças pelo mundo – com Rússia e Israel, Turquia e Japão –, e provocar um distanciamento em relação a Europa, China, Sudeste Asiático e México. Mas nada isso não seria necessariamente negativo. Haveria, é claro, outras consequências para a Otan, a possível perda de peso da UE e etc.

Internamente, porém, e isso é o mais grave, poderia dar origem a um cataclismo: estados como a Califórnia podem querer se separar da União; haveria também uma ameaça pacífica, mas persistente, do México, como profetizou Huntington antes de morrer; protestos sociais, que tornariam o país ingovernável; militarização e repressão, ou questionamentos severos do Partido Republicano sobre seu novo líder, enquanto os democratas afundam em uma grave crise. Esses cenários podem ou não se concretizar ao longo dos próximos meses ou anos.

A União Europeia também corre grande risco. Se, em dezembro, o premiê Matteo Renzi perder o referendo constitucional na Itália, a derrota poderá provocar uma nova crise similar ao Brexit. Além disso, a extrema direita também tentará tomar o poder na França e na Alemanha no próximo ano. Assim, em 2018, os cinco países do Conselho de Segurança seriam liderados pelos já conhecidos Vladímir Pútin e Xi Jinping, os recém-chegados Trump e May, e, talvez, Marine Le Pen. Em suma, um equilíbrio de poder, como sempre sonharam os realistas, mas com líderes totalmente desconcertantes, embora não belicistas.

Entre 1989 e 1991, todos se precipitaram, e a URSS caiu como um ‘castelo de cartas’, ainda que anos antes fosse vista como uma superpotência. Os EUA de Trump, tão preocupado em revitalizar seu país como queria Gorbatchov em relação à União Soviética, dá sinais evidentes de desgaste e inviabilidade, social e internacional.

O 11 de setembro começou a escrever a história do fim do sonho americano – tantas vezes anunciado, porém inesperado. Seria esta é a verdadeira causa da euforia do atual líder do Kremlin, que agora percebe que a história tem suas reviravoltas – as mesmas que ele tanto esperava de seu escritório da KGB em Dresden há 27 anos?

Marcelo Montes é doutor em Relações Internacionais e professor de Política Internacional na UNVM (Córdoba).

Com a Consultoria e Análise de Riscos

Gostaria de receber as principais notícias sobre a Rússia no seu e-mail?    
Clique aqui para assinar nossa newsletter.

Os textos publicados na seção “Opinião” e "Blogs" expõem os pontos de vista dos autores e não necessariamente representam a posição editorial da Gazeta Russa ou da Rossiyskaya Gazeta
+
Curta a "Gazeta Russa" no Facebook