Crise em Caracas também é da conta de Moscou

14 de novembro de 2016 Evguêni Bai, jornalista
O confronto atual entre chavistas e a oposição pode ter sérias implicações para Rússia, tanto política quanto economicamente. Além dos contratos milionárias com a indústria de defesa russa, Caracas recebe investimentos altos de Moscou no setor de energia.
Opinião
Chancelaria russa se posiciona contra interferência externa Foto:AP

A volátil situação política e a crise na Venezuela atraem a atenção dos vizinhos, entre eles o Brasil, mas tem efeitos ao redor do mundo. A Rússia é um desses países que segue atentamente o desenvolvimento dos acontecimentos relacionados a Caracas.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo mostrou repetidas vezes o desejo de que a situação conforme a Constituição local e se posicionou categoricamente contra a interferência externa nos assuntos do país.

Nas palavras do vice-chanceler russo Serguêi Riabkov, a Venezuela é uma das “parceiras-chave” e “aliada” da Rússia na América Latina.

Além disso, empresas de armas e de energia russas têm forte presença no país. A estatal Rosneft, por exemplo, investiu na Venezuela ao longo dos últimos dez anos.

Em outubro passado, Ígor Sêtchin, presidente da petrolífera russa, e o líder venezuelano Nicolás Maduro assinaram um novo acordo para gerar um investimento total de quase 20 bilhões de dólares em projetos de petróleo no vale do Orinoco. A Rosneft planeja ainda transportar petróleo venezuelano à refinaria Essa Oil, localizada na cidade indiana de Vadinar.

Observadores russos estão, porém, divididos ao avaliar o futuro das relações russo-venezuelanas. “Se mudar o presidente, a oposição será pragmática e tentará manter os contratos já existentes com outros países, porque eles são benéficos para ambos”, diz Zbigniev Ivanovski, do Instituto Latino-Americano da Academia Russa de Ciências.

Mesmo depois que forças de direita chegaram ao poder na Argentina e no Brasil, os acordos internacionais estabelecidos anteriormente com Moscou não mudaram.

A situação com Caracas é um pouco mais delicada, contudo. A Assembleia Nacional, com maioria da oposição, demonstra claramente irritação com o apoio da Rússia ao regime de Chávez e, posteriormente, ao de Maduro.

Moscou é também um importante fornecedor de armas e material bélico, assim como um importante apoio político da Venezuela na arena internacional. Em sinal de desaprovação dessa postura, a Assembleia Nacional já alertou que poderia anular os projetos oficiais entre os países.

“A mudança de regime na Venezuela é possível”, diz Aleksêi Makárkin, vice-diretor do Centro de Tecnologias Políticas. “Maduro pode se manter à tona, mas os investidores olham para o que poderá acontecer em alguns anos”, completa.

Embora as novas autoridades possam também ser seletivas na abordagem com a Rússia, é pouco provável que a cooperação militar-tecnológica seja mantida, já que o novo governo terá de trabalhar duro e renunciar a algumas das antigas ambições.

Além disso, os Estados Unidos também poderiam influenciar o processo de tomada de decisão das novas autoridades da Venezuela, e isso não seria favorável para a Rússia, segundo Makárkin.

Independentemente do futuro cenário, é provável que os contratos de petróleo continuem garantidos, embora com condições menos flexíveis – menos benéficas para o Kremlin em comparação aos governos de Chávez e Maduro. Paralelamente, haveria um aumento da concorrência no mercado de petróleo da Venezuela, com a entrada de empresas de energia ocidentais e novos processos jurídicos.

A preocupação da Rússia sobre a futura liderança na Venezuela esconde, portanto, motivos suficientes. Mas o fato de que Moscou apoia Maduro complica sua função como possível mediador entre Caracas e a oposição. O papa Francisco e outros líderes latino-americanos chegam agora para ocupar esse papel. E isso significa também que a Rússia está perdendo sua influência perante o resultado final.

Artigo abreviado e originalmente publicado no Russia Direct

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Evguêni Bai é jornalista internacional, especialista em América Latina e colaborador nos veículos The New Times, Novaia Gazeta e Ekspert.

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