Os piores insultos desde a Guerra Fria

7 de novembro de 2016 Geórgui Bovt, cientista político
Política e mídia se fundem em declarações bombásticas – e cada vez mais arriscadas.
Ilustração: Iorsh

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguêi Lavrov, lamentou, em entrevista recente, que, “no contexto sírio, os parceiros ocidentais, em especial americanos e britânicos, estão à beira da histeria, com insultos em público e uso de palavras como ‘barbárie’ ou ‘crimes de guerra’”. Por que a retórica diplomática se tornou tão afiada?

Devido às ações da Rússia na Síria, e ao apoio ao governo de Assad em sua luta contra os radicais islâmicos, o Ocidente, por vezes, lança acusações que não se permitia nem mesmo durante os anos da Guerra Fria. É verdade que o governo soviético usou o termo “bombardeios bárbaros” referindo-se às ações dos EUA no Vietnã, mas essas ações foram duramente criticadas na época, mesmo dentro do país norte-americano. E, o mais importante, ninguém havia usado antes fora de um contexto um termo tão significativo como “crimes de guerra”.

A agressão na diplomacia se tornou uma ocorrência quase diária, mesmo entre países que são considerados parceiros. Por exemplo, em dado momento, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy já brincou sobre Angela Merkel, que “diz estar de dieta, mas pede uma segunda porção de queijo”, enquanto a chanceler alemã o comparou ao personagem de comédia britânico Mr. Bean. O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi também trocou insultos com mais da metade dos líderes da UE.

O atual “estrela” mundial das agressões políticas é o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, que chama Obama de “filho da puta” e o manda o inferno, e diz que os países da UE que “se fodam”. Sobrou até para o papa Francisco, cuja chega em Manila causou engarrafamentos: “Papa, filho da puta, vá embora, não volte a nos visitar”.

A imprensa imediatamente ecoa esse tipo de explosão vinda de políticos, sobretudo dos mais populistas. Isso ajuda a melhorar os índices de popularidade dos líderes “decisivos em suas palavras”, ainda que custem as relações com outros países.

O cenário político contemporâneo é cada vez mais dependente das necessidades dos meios de comunicação – é uma espécie de fusão entre mídia e política.

Este fenômeno fez com que alguns políticos jornais ocidentais adeptos da “demonização de Pútin”, de repente, como se seguissem ordens, publicassem ao mesmo tempo retratos do presidente russo em seus portais que só poderiam ser descritos como insulto. Nem a propaganda soviética durante a Guerra Fria se permitiu ir tão longe. E nada disso desperta qualquer reação na classe política. Liberdade de expressão, justifica-se. O único porém é que essa “liberdade” implica uma deterioração futura nas relações. O próprio Pútin repreendeu um apresentador de TV russo que havia prometido transformar os EUA em “cinzas radioativas”.

No mundo inteiro a política está se convertendo em um espetáculo a serviço de um público pouco esclarecido, com o objetivo de manter a popularidade de líderes que são incapazes de enxergar um palmo além do horizonte do atual mandato.

Ninguém parece pensar sobre as consequências a longo prazo. Por exemplo: em que termos se relacionará com Pútin a nova administração norte-americana liderada por Hillary Clinton, caso ela venha ser eleita, depois de tudo o que a candidata democrata disse contra o presidente russo durante a campanha eleitoral? Como será possível organizar negociações sérias sobre o conflito na Síria depois de acusarem a Rússia de ser um país “bárbaro” e de cometer “crimes políticos”? Depois de políticos do nível do ministro das Relações Exteriores da França apelarem pela denúncia desses “crimes” do governo russo junto ao Tribunal Penal Internacional, em Haia? Essas ações de promoção política carregam em si um enorme sacrifício.

Uma coisa é quando o líder de um país ditatorial como a Coreia do Norte se deixa ter um comportamento próprio de um delinquente, mas, quando as grandes potências, das quais depende o destino do mundo, escolhem esse tipo de retórica, uma grande guerra pode estar próxima. Esse comportamento era mais recorrente na Idade Média, quando conflitos eram muitas vezes iniciados por ambições e queixas da realeza.

É claro que as guerras têm audiência na TV e ajudam a aumentar os índices de popularidade. Mas ninguém quer que os telespectadores acabem do outro lado da tela.

Geórgui Bovt é membro do Conselho para a Política Externa e de Defesa.

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