Ex-membros da União Soviética vivem à sombra da Rússia

Enquanto a economia russa prosperou após o colapso do regime de Lênin, este cenário é menos uniforme entre as antigas repúblicas da União Soviética.
Opinião
Resto de estátua de Lênin na base militar de Vaziani, na Geórgia Foto:AP

Nos anos oitenta, um vídeo que costumava passar bastante na TV soviética exibia, ao som do hino nacional, todo o poderio do país. Mostrava foguetes rumo ao espaço, satélites orbitando o planeta, fábricas agitadas, enormes desfiles e trens velozes.

O filminho era também sobre pessoas – ou melhor, as bem-sucedidas, como Iúri Gagárin, medalhistas olímpicos e heróis militares. E esse era o problema: um sistema aparentemente criado para dar a cada cidadão tratamento justo acabou por beneficiar alguns grupos específicos.

O que os filmes de propaganda patriótica da URSS não mostravam era o trabalho árduo na vida diária. As roupas eram sem graça, os edifícios, cinzentos, e a comida, às vezes, não muito abundantes nem oferta, nem variedade. No entanto, apesar desses aspectos negativos, muitos povos antes soviéticos diriam se sentir melhor naqueles dias, o que, talvez, ofereça uma reflexão mais profunda sobre o quão mal algumas ex-repúblicas da URSS lidaram com a transição para a independência – sem falar da desigualdade gritante comum a todos eles.

Vinte e cinco anos mais tarde, todos os 15 Estados que constituam a União Soviética seguiram caminhos diferentes. E, assim, têm alcançado diferentes graus de sucesso ou fracasso. Em termos estatísticos, os vencedores são, provavelmente, os Estados bálticos, o Cazaquistão e a própria Rússia, embora seja justo dizer que a Ucrânia, a Moldávia e outros países da Ásia central continuam na luta.

Hino soviético Fonte: YouTube/OminaOne

Desfechos distintos

Na Geórgia, na Armênia e no Azerbaijão, os resultados variaram, e a Bielorrússia destoou dos demais. Minsk reagiu à implosão da URSS quase que ignorando os fatos. Tanto é que até hoje a polícia deste país é conhecida como KGB (agência de inteligência soviética), e fidelidade aos ideais de Lênin continua sendo louvável.

Na época soviética, a cidade ucraniana de Krivoi Rog, também conhecida como Krivbas, era uma potência industrial. Construída para servir a indústria de mineração, acabou entrando em estagnação durante o último quarto de século.

O pai de Viktória Botcharova se mudou de São Petersburgo na década de 1970, e sua mãe nasceu em Kiev. Ele voltou para a Rússia há 15 anos, porém, Viktória e sua mãe permaneceram na cidade ucraniana.

“Meu pai tinha um bom emprego nos anos 80, e um pouco de dinheiro, e ele sempre reclamava que não havia nada nas lojas para comprar. Agora, aqui estou, 30 anos mais tarde, e nós temos pencas de coisas nos shoppings, mas muito pouco dinheiro para gastar! É como o teatro do absurdo, de fato”, diz Botcharova.

“Os ucranianos esperam por duas décadas pela bonança, mas nunca vem. Acho que a gota d’água para a maioria de meus colegas foi há dois anos, depois da Maidan, que destruiu o pouco da economia que tínhamos”, acrescenta.

“Os que podiam se mudaram para a Rússia, ou, com sorte, à Europa, e o restante ficou atado à situação aqui. Entretanto, eu mesmo planejo ir para Krasnodar em breve.”

As estatísticas corroboram suas queixas. Em 1991, o PIB ucraniano era 30% maior que em 2014, sendo a queda devida sobretudo à degradação tecnológica, e o índice caiu em mais 16% desde então. Diante das perspectivas, muitas pessoas decidiram sair em busca de seu próprio futuro. A Ucrânia, por exemplo, perdeu 12% de sua população entre 1990 e 2013, e o departamento de estimativas populacionais da ONU prevê que o número total de habitantes do país chegue ao 34 milhões até 2050, contra os 51 milhões registrados em 1991.

Os países bálticos – Lituânia, Estônia e Letônia – percorreram um caminho completamente diferente, mas também enfrentam dificuldades demográficas. A Lituânia, por exemplo, perdeu 24% de sua população desde a independência, a Letônia, 25% (até 2015), e a Estônia, 19% (baseado em um censo de 2016). No entanto, em vez de se espalhar pelos vários cantos do mundo, todos os emigrantes dessas nações se transferiram quase que uniformemente para regiões mais prósperas da União Europeia e da Rússia, ainda que seus países de origem mantenham esperança de atrair novamente uma boa parcela dos expatriados no futuro. Por isso, embora seja possível observar poucos jovens morando nos vilarejos e cidadezinhas da Letônia, essa realidade poderá mudar algum dia – especialmente se o país for bem-sucedido em sua missão de transformar a economia pela atração de investimento direto estrangeiro.

“Vivo na Irlanda há 12 anos, e meus filhos nasceram aqui, mas ainda tenho a esperança de volta para casa um dia”, diz Nils, que trabalha como mecânico em Dublin. “Pelo menos meus dois filhos conhecem sua terra natal, porque passam todo verão com meus pais em Jurmala, e todos fazemos parte da União Europeia agora, então, estou confiante de que eles retornarão para Letônia no futuro.”

Embora muitos jovens do Báltico tenham encontrado melhores oportunidades na Europa Ocidental, por mais incrível que pareça, a Rússia tem sido o destino número quando os cidadãos dessas três nações desejam emigrar. Essa situação é, aliás, comum por todo o território da ex-União Soviética. Por exemplo, remessas no valor de 4,2 milhões de libras esterlinas foram transferidas da Rússia para o Uzbequistão em 2014 (o equivalente a um terço das receitas do orçamento estatal) e acredita-se que entre 2 e 4 milhões de ucranianos vivam na Rússia atualmente.

Bakhodir é professor uzbeque em Khabarovsk, a capital do Extremo Oriente russo. “Lá no nosso país, ganhamos salários irrisórios, e as leis não são aplicadas para nada. Embora a Rússia não seja perfeita, aqui se tem consideração pelos direitos humanos, as pessoas geralmente têm autonomia, e os salários permitem uma vida mais digna. Eu realmente gosto de viver aqui”, diz. “Sonho em morar na Inglaterra, mas não é uma opção realista, e Khabarovsk já está de bom tamanho”, completa.

Rússia na largada

Considerando que a União Soviética era basicamente um império controlado por Moscou, não há dúvidas de que a Rússia foi quem mais se beneficiou com o colapso do regime. O PIB nominal do país atingiu o pico de US$2,07 trilhões, comparados aos US$ 509 bilhões em 1991. No entanto, os anos 1990 foram uma década perdida e caótica, e o PIB chegou ao mínimo de US$ 195,9 bilhões naquele período.

Não mais obrigada a subsidiar regiões longínquas ou manter os gastos com segurança nos quais os soviéticos insistiam, grande parte da Rússia prosperou nos últimos tempos, apesar da atual recessão. Marina Tikhomirova, de Vladivostok, vivenciou ambas as épocas. Marina era uma jovem médica quando a URSS desapareceu, e agora tornou-se uma empresária de sucesso no setor de móveis.

“Por outro lado, lamento que as profissões tenham perdido status. Nos tempos antigos, médicos, professores e cientistas tinham prestígio na comunidade. Era um símbolo de status. Agora, tudo mudou, e quem tem mais dinheiro, independentemente do que fizer, é que está no topo”, diz Marina. “Mas só este ano já visitei Vietnã, Cingapura, Saipam, Berlim, Cannes e Miami, e ainda estamos em outubro. Quando ainda era criança, no comunismo, viajar assim era impensável.”

Já Ania Romanenko, que trabalha para Marina, é oriunda de uma aldeia remota na região de Primorski e não se lembra da época comunista.

“A vida não é fácil na Rússia, mas eu viajo também. Estive na Coreia e na China. Além disso, tenho meu próprio carro, casa própria, e sinto que tenho futuro”, diz Romanenko. “Minha mãe, que trabalhou duro a vida toda, consideraria uma viagem a Vladivostok como algo especial.”

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