Pútin sente saudade da URSS, mas não quer reconstruí-la

29 de setembro de 2016 Andrei Kortunov, analista
O presidente russo Vladímir Pútin declarou em várias ocasiões que o colapso da União Soviética foi um erro geopolítico. Embora seu discurso seja muitas vezes interpretado como um desejo de retomar o bloco, há pouca razão para acreditar nisso.
Opinião
Estela em referência à URSS no parque Muzeon, em Moscou Foto:Lori/Legion Media

Será que Vladímir Pútin quer restaurar a União Soviética? Ninguém pode provar que ele não queira. No entanto, ninguém pode provar também que Barack Obama não quer transformar os EUA em  uma monarquia ou que Bill Bailey não tenha o desejo de se tornar o novo Dalai Lama.

É evidente que Pútin se sente nostálgico em relação ao passado soviético, já que isso é natural para muitos russos com sua idade – e, sobretudo, com seu histórico. Eu também sinto saudade dos anos 1970 e 1980; essa foi a época de minha infância e juventude, com todas as lembranças maravilhosas e inesquecíveis tão exclusivamente associadas a esse período da vida.

Mas, deixando de lado todos os sonhos, desejos (inclusive ocultos) e nostalgia, estaria Pútin realmente planejando o retorno da URSS? A resposta é um “não” definitivo, afinal, o líder russo é um político racional capaz de fazer uma avaliação realista das capacidades atuais da Rússia, bem como da natureza do atual sistema internacional.

Em primeiro lugar, a União Soviética foi erguida sobre uma coesa e poderosa base ideológica comunista que contava – pelo menos durante a primeira metade do século 20 – com centenas de milhões de seguidores por todo o mundo.

A ênfase atual do Kremlin na “soberania” e sua preocupação com as “revoluções coloridas” indicam o caráter mais isolacionista do que expansionista do regime; ambos escancaram o medo evidente de ideologias estrangeiras penetrarem na Rússia, e não a intenção de promover uma ideologia universalista no exterior.

Em segundo lugar, a União Soviética se baseava em um modelo de modernização exclusivo. Era cruel e implacável, mas, em vários aspectos, permitia uma mobilização social e política muito eficiente. O exemplo mais representativo dessa capacidade é, naturalmente, a Segunda Guerra Mundial, mas há outros, como o programa espacial soviético. Hoje, essa singularidade não existe mais – a Rússia tornou-se um Estado capitalista, ainda que sua transição do comunismo seja incompleta e incoerente.

Em terceiro lugar, não há simplesmente vontade política nem compromisso necessário para iniciar a restauração da ex-União Soviética. Após a reunificação alemã, Berlim introduziu o chamado “imposto de solidariedade” para facilitar a integração da antiga Alemanha Oriental à República Federal; e a sociedade alemã aceitou esse encargo adicional sem grande oposição. No entanto, a ideia de um imposto similar para reintegrar a Crimeia à Rússia não foi recebido com entusiasmo em Moscou, e a ideia foi rapidamente abandonada.

Será que isso significa que a Rússia não está tentando manter sua influência sobre o território da antiga União Soviética? Claro que não. As ex-repúblicas soviéticas não são para a Rússia o mesmo que as colônias britânicas na África foram para o Reino Unido; o nível de integração econômica, social e cultural soviética faz com que essas repúblicas sejam mais semelhantes a Irlanda e Escócia.

O histórico de políticas do Kremlin na vizinhança ao longo dos últimos 25 anos tem sido, em grande parte, marcado por diversas tentativas – sobretudo desajeitadas e mal sucedidas – de criar um cinturão de ‘Estados amigos’ ao longo das fronteiras russas, mantendo, assim, os laços econômicos, sociais e humanitários que tem raízes profundas na história dessa imensa região do planeta.

As prolongadas repercussões das crises na Geórgia e na Ucrânia tornam esse objetivo mais difícil e distante do que nunca, mas nem mesmo esses conflitos sangrentos alteram um fator fundamental: a Rússia só pode garantir segurança e prosperidade se o país estiver rodeado por vizinhos estáveis, vibrantes e amigáveis.

A tentativa mais recente de assumir essa grande tarefa vem do conceito da União Econômica da Eurásia (UEE), que engloba, além da Rússia, outras quatro ex-repúblicas soviéticas. Os países do chamado Ocidente deveriam estar preocupados com essa iniciativa? Trata-se de um disfarce para uma nova URSS em construção?

Mais uma vez, repito: não. A meu ver, a UEE é um projeto sem futuro ou inofensivo. É uma iniciativa inútil se continuar sendo essa “santa aliança” de regimes econômicos e sociais antiquados incapazes e sem disposição para gerar reformas significativas. E é inofensiva se a integração econômica da Eurásia for baseada em uma profunda transformação dos Estados-membros no sentido de estimular livre mercado, inovação social e pluralismo político. Neste último caso, a Rússia poderia, enfim, superar seu trauma pós-imperial sem despender mais sangue e dinheiro.

Andrêi Kortunov é diretor do Conselho Russo para Assuntos Internacionais.

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