O que a geopolítica global ganha (ou perde) com a corrida pela Casa Branca

27 de setembro de 2016 Fiódor Lukianov, analista político
À medida que as eleições presidenciais nos EUA avançam e os debates ficam mais acalorados, pessoas ao redor do mundo discutem como o resultado afetará a geopolítica global. Analista político compartilha suas ideias sobre a real importância da campanha.
Opinião
Obama e Rasmussen reunidos na Casa Branca, em 2013 Foto:Reuters

Há exatos 12 anos, em meio a outra campanha eleitoral dos EUA, acontecia em Nova York uma conferência sobre relações internacionais. George W. Bush e John Kerry, atual secretário de Estado, estavam na corrida pela presidência. A campanha ocorria um ano e meio após a invasão dos Estados Unidos ao Iraque, e a maioria dos participantes do evento imploravam aos mais poderosos, bem como aos eleitores, para libertar o país do suposto “mal” chamado Bush.

No calor da discussão, um representante de um dos países africanos presentes se levantou e disse enfaticamente: “Já que a humanidade depende tanto de quem será o futuro presidente dos EUA, por que, então, ele não é eleito pelo mundo inteiro?”.

A proposta não foi recebida com risos – mas com aprovação. Na época, Bush era extremamente impopular no cenário internacional; no caso de uma “votação universal”, ele não teria qualquer chance de ganhar. Aliás, ao contrário do que ocorreu em seu próprio país, onde um mês depois foi reeleito para cargo por mais quatro anos.

12 anos depois

A questão do representante africano refletia perfeitamente a percepção da situação que se formou após a Guerra Fria. Qualquer candidato que fosse vencedor, mesmo sendo impopular, viria a se tornar o político mais importante do mundo.

Hoje, 12 anos depois, todos os países estão novamente de olhos atentos à campanha presidencial norte-americana. No entanto, pela primeira vez em um quarto de século, os adversários diferem visivelmente em sua compreensão do papel que os Estados Unidos deveriam desempenhar na arena internacional.

Quando vários players externos começaram a questionar o axioma da liderança global dos EUA, o movimento deflagrado era visto como parte do processo de disseminação da democracia. Mas o surgimento de diversas camadas sociais no Ocidente que não entendem por que é necessário empreender tantos esforços no estrangeiro – quando se tem tantos problemas internos – abalou os alicerces da ordem.

É por isso que a atual campanha eleitoral nos Estados Unidos é, de certo modo, única. Não se pode negar que ainda é dirigida ao eleitor local, mas também é voltada para o público estrangeiro, que deve ser convencido de que Washington não tem a intenção de renunciar à sua liderança global. Para ser sincero, falta, no entanto, o entendimento de como que essa liderança conseguirá se sustentar no futuro.

Ideologia do cinismo 

Uma interessante controvérsia se desenrolou esta semana entre o presidente dos EUA, Barack Obama, que falou perante a Assembleia Geral da ONU, e o ex-secretário geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, que publicou um artigo no “The Wall Street Journal”.

Discursar na ONU é comum para Obama. Ele sempre enfatiza o papel de destaque de seu país, listando todas as suas grandes contribuições para a humanidade. Mas também sabe se conter. Obama costuma reiterar que os EUA não são onipotentes, que o mundo unipolar não é norma, mas sim exceção, e que Washington cometeu erros.

A dualidade de Obama e sua busca por uma abordagem equilibrada mostram que ele, mais do que qualquer um de seus compatriotas, percebe o quão multidimensional o mundo de hoje é.

No entanto, o que é importante para um acadêmico raramente beneficia um político.

Obama, que começou como a encarnação de uma nova era, vem constantemente tentando reduzir as expectativas das pessoas e, ao mesmo tempo, é cobrado a apresentar uma posição precisa e que gere resultados evidentes.

No final, todo mundo acaba infeliz – não só os seus adversários, que o qualificam como fraco e evasivo, como seus partidários, que acham que o chefe de Estado tem feito muito pouco do alto de sua posição.

Por outro lado, Rasmussen, como qualquer outro seguidor de uma ideologia neoconservadora, parece entender de tudo. As ameaças estão aumentando, os terroristas estão ficando mais fortes, a Rússia se torna mais audaciosa, e a China vem disputando o poder global – em suma, alguém deve colocar um ponto final em tudo isso.

“O mundo precisa de uma polícia se a liberdade e a prosperidade prevalecerem contra as forças de opressão, e o único candidato capaz, confiável e desejável para essa posição são os Estados Unidos”, escreveu o dinamarquês em seu artigo, pedindo ao país que “acorde”.

Não é necessário fazer uma análise profunda do texto de Rasmussen – trata-se de mero material de propaganda dirigida ao eleitor. Porém, cabe aqui um comentário.

Entre os problemas que exigem o envolvimento dos EUA em nome da preservação da ordem, Rasmussen cita o caso da Líbia, que, em suas palavras, “entrou em colapso e tornou-se um terreno fértil para terroristas”. Não sei quem lhe aconselhou a usar esse exemplo, mas, se considerarmos o histórico de conflitos na região, a declaração soa incomensuravelmente cínica.

Tempo urge no mundo todo

Obama e Rasmussen concordam, porém, em um ponto: é importante que o país não adote abordagens isolacionistas. Não é à toa que ambos apoiam Hillary Clinton, embora utilizando métodos e discursos completamente distintos.

Obama se dirige às pessoas que perderam a confiança no futuro, na tentativa de atrair os potenciais eleitores de Trump. Sua ideia é mostrar que o governo norte-americano compreende os anseios do povo. Já Rasmussen, fala àqueles que não precisam ser persuadidos – seu apoio deve apenas ser reforçado.

Mas a situação é muito mais grave: a mudança nos paradigmas sociopolíticos que vem se desenhando claramente nos Estados Unidos e no mundo todo indica que a classe dominante também está rachada.

A fatalidade anunciada em relação às próximas eleições é provavelmente exagerada. Afinal, quem ganhar não quebrará o sistema. Hillary não será capaz de retornar à década de 1990 (pela qual tanto anseia) nem Trump aos seus amados anos cinquenta.

A inércia da máquina do governo ainda é grande, apesar de sua agitação perante à imprevisível reação das massas. Só que a transição gradual para uma fase diferente é inevitável.

Tudo começou com Obama, que tentou combinar slogans tradicionais com uma política diferente. Isso continuará com o próximo presidente e, provavelmente, ganhará um nova roupagem na década de 2020. Isto é, caso o sucessor de Obama não saia da trilha só para provar a Rasmussen que Washington não está mais dormindo.

Fiódor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa, um grupo independente de reflexão com sede em Moscou.

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