Bancos privados querem capitalizar com relações comerciais entre Rússia e América Latina

26 de fevereiro de 2013 Viktor Kuzmin, Especial para Gazeta Russa
Entusiasmados com o crescimento das relações comerciais entre Rússia e América Latina, bancos privados russos poderão seguir o recente exemplo do Banco do Brasil, que vai abrir um escritório de representação em Moscou.
Foto: AP
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Interessadas em participar das operações de comércio exterior do país com a região latino-americana, as instituições financeiras privadas da Rússia planejam desempenhar parte do trabalho tradicionalmente executado pelas instituições governamentais.

Nos últimos dez anos, a cooperação entre a Rússia e os países da América Latina e do Caribe registrou um aumento significativo. “Na esteira das empresas comercias e industriais, os bancos também começaram a se interessar pela parceria com a América Latina”, disse em entrevista à Gazeta Russa a vice-presidente sênior do banco Interkommertsbank, Viktória Ermakova.

Relações da Rússia com...

Brasil

A Rússia é um mercado importante para os produtos agrícolas brasileiros, sobretudo com a adesão do país à OMC (Organização Mundial do Comércio). O Brasil importa da Rússia tanto helicópteros e peças de reposição, como turbinas e geradores de energia para usinas hidrelétricas. Além disso, têm potencial de parceria em grandes projetos conjuntos de extração de recursos minerais, petróleo e gás.

 

Argentina

Os dois países cooperam no uso pacífico de energia atômica, no setor espacial, na modernização de usinas de energia e ferrovias argentinas, assim como na pesquisa geológica e na silvicultura.

 

Venezuela

Os principais temas da cooperação entre a Rússia e a Venezuela são petróleo e gás, indústria química e petroquímica, exploração conjunta de recursos naturais e cooperação técnico-militar.

 

Paralelamente, o governo russo recentemente decidiu reorientar as atividades das missões comerciais russas no exterior e dar ênfase à vertente latino-americana. “Isso permitirá intensificar os contatos entre empresários russos e latino-americanos e vai consequentemente estimular os bancos russos a abrir suas agências, sucursais e subsidiárias na América Latina e Caribe”, continuou Ermakova.

A Rússia já tem um grupo de trabalho para cooperação interbancária e financeira com o Brasil, e o acordo de criar e com a Venezuela um banco russo-venezuelano para apoiar o comércio de armas entre os países. A Venezuela é a maior importadora de armas russas da América Latina e a segunda maior do mundo após a Índia.

O comércio bilateral entre a Rússia e os países da América Latina e do Caribe apresenta uma dinâmica positiva de um modo geral. Se, em 2006, o comércio bilateral com a região somava apenas US$ 7 bilhões, hoje em dia, o intercâmbio comercial apenas entre a Rússia e o Brasil chega perto desse valor.

“Esse crescimento é impulsionado pelas atividades do setor privado russo na América Latina”, afirmou Ermakova. “Para empresários russos, essa região não é apenas uma fonte praticamente insubstituível de muitos dos bens (principalmente alimentos) necessários ao nosso consumidor, mas também um mercado grande e dinâmico para produtos industriais e investimentos russos.”

As relações da Rússia com as instituições financeiras desses países estão sendo estimuladas em nível governamental. O Conselho Empresarial Rússia-Brasil, por exemplo, é dirigido desde 2009 pelo Vnecheconombank (Banco do Comércio Exterior russo), e o grupo de trabalho para a cooperação interbancária da comissão Rússia-Brasil é chefiado por um dos executivos do Banco Central da Rússia.

“A responsabilidade de desenvolver relações interbancárias com a América Latina e o Caribe está atualmente com os bancos estatais, mas os privados realmente se mostram interessados em participar desse processo”, acrescentou Ermakova.

Futuro promissor

A expectativa é que, em um futuro próximo, o intercâmbio comercial entre russos e latino-americanos alcance a meta de US$ 20 bilhões, uma cifra tão alta que não poderia deixar de despertar interesse dos bancos dos dois lados.

Atualmente, o serviço dos fluxos comerciais inclui tanto operações em conta aberta quanto operações de financiamento do comércio exterior. Garantias e cartas de crédito são as modalidades de pagamento mais praticadas.

A ausência de longo histórico de cooperação gera preocupações recíprocas e riscos, entretanto, o financiamento de operações do comércio exterior permite garantir os pagamentos e entregas de bens com créditos documentários.

“Ao contrário do financiamento tradicional com cash, o financiamento de operações do comércio exterior permite ao cliente envolver grandes recursos financeiros no intercâmbio comercial e, por outro lado, minimizar seus riscos e reduzir as taxas de juros”, explicou a executiva.

Segundo Ermakova, a cooperação mais dinâmica no setor bancário ocorre com instituições financeiras do Brasil, Venezuela, Chile e Argentina. No entanto, o desenvolvimento das relações financeiras é complicado pela presença de uma moeda intermediária, o dólar norte-americano, nos desembolsos recíprocos.

Ao se referir ao pacote de acordos assinado durante a visita da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, à Rússia em dezembro do ano passado, o presidente russo, Vladímir Pútin, disse que um dos grandes desafios é aumentar o papel das moedas nacionais da Rússia e do Brasil nos desembolsos recíprocos. O primeiro passo nesse sentido já foi dado.

O Vnecheconombank e o Banco de Desenvolvimento do Brasil concordaram em “desdolarizar” o intercâmbio comercial entre os dois países.  A partir de agora, o financiamento de todos os projetos entre os dois países será efetuado em rublos ou reais.

Contudo, os bancos privados dificilmente se atreverão a seguir seu exemplo. De todas as moedas dos países do Brics, apenas o yuan chinês é transacionado no mercado cambial russo. Isso porque as trocas comercias entre a Rússia e a China ultrapassaram US$ 87,5 bilhões em 2012.

No futuro, é possível que o rublo também passe a ser transacionado contra o real brasileiro, mas isso não acontecerá antes de o intercâmbio comercial entre os dois países atingir um valor comparável.

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