Roedores podem ser chave para ‘juventude eterna’, dizem cientistas

Pesquisadores moscovitas estudam retardo de envelhecimento em ratos-toupeira pelados. Segundo eles, no futuro, evolução humana poderá seguir o mesmo padrão.
Pelo fato de não precisarem se adaptar ao ambiente, ratos-toupeira praticamente pararam de evoluir Foto:AFP

Os ratos-toupeira-pelados (Heterocephalus glaber) têm muito pouco em comum com os seres humanos. No entanto, após um estudo de seis meses com esses animais, pesquisadores do Instituto Belozersky de Biologia Físico-Química da Universidade Estatal de Moscou, chegaram a uma previsão para o futuro da humanidade.

Encontrados em países da África Oriental, como Quênia, Etiópia e Somália, esses roedores parecem semelhantes aos ratos, no entanto, vivem 10 vezes mais, chegando aos 30 anos. Além de não estarem propensos a doenças relacionadas à idade, eles permanecem alertas e ativos durante toda a sua vida. Por que isso ocorre?

Os cientistas descobriram uma ligação entre o lento desenvolvimento do corpo nessa espécie e o fato de que seu corpo não possui mecanismos de envelhecimento. Para os especialistas, os humanos poderão evoluir conforme esse mesmo padrão no futuro.

Humanos e ratos-toupeira, juntos para sempre

Os pesquisadores descobriram que os seres humanos e os ratos-toupeira-pelados compartilham um conjunto de sinais semelhantes de desenvolvimento corpóreo, e é possível que ambas espécies estejam evoluindo em padrões semelhantes.

Assim como os roedores, um importante indício de maturidade nos seres humanos é o tempo necessário para o desenvolvimento do cérebro. Por exemplo, as reações cerebrais demonstradas por chimpanzés de um ano de idade não se tornam aparentes nos seres humanos antes dos cinco anos de idade.

No caso dos ratos-toupeira-pelados, foram precisos dezenas de milhões de anos para evoluir e retardar o processo de envelhecimento. Os seres humanos só começaram a seguir esse padrão entre 100 mil e 200 mil anos atrás, e levará vários milhões de anos para desativar completamente nossos mecanismos de envelhecimento.

Embora seja impossível acelerar a evolução, os cientistas estão buscando maneiras de retardar o processo de envelhecimento com o uso de drogas farmacêuticas que isolem os radicais livres. Esses medicamentos são alvo de estudo na Universidade Estatal de Moscou há uma década e agora estão passando por testes clínicos em seres humanos.

Chave para a juventude eterna

Segundo os pesquisadores, os ratos-toupeira teriam sido capazes de retardar os processos evolutivos e ignorar a seleção natural. Seus corpos contêm muito menos elementos genéticos móveis do que outros mamíferos; pelo fato de não precisarem se adaptar ao ambiente em transformação, eles praticamente pararam de evoluir.

“O envelhecimento é uma maneira muito cara, dolorosa e desagradável de acelerar a evolução”, diz Maksim Skulatchev, pesquisador sênior do Instituto Belozersky. “Os ratos-toupeira são vencedores e não precisam acelerar a evolução. A natureza lhes deu a eterna juventude congelando seu desenvolvimento desde que nascem”, completa.

Os cientistas identificaram 43 sinais de neotenia (atraso do desenvolvimento que faz com que as características juvenis se mantenham na idade adulta) em tais roedores, incluindo subdesenvolvimento de pulmões, cabeça enorme, e problemas de termorregulação (a temperatura dentro do laboratório é mantida a 28°C ou mais). Além disso, ao contrário dos ratos comuns, não possuem pelos e, ao longo de toda a vida, se assemelham a recém-nascidos.

A gravidez nos ratos-toupeira leva cerca de 90 dias – período bastante longo quando comparado a outros roedores. Apenas a rainha e seus parceiros do sexo masculino são capazes de reproduzir; o resto da colônia serve para proteger, cavar túneis e criar seus descendentes. Quando a rainha, outra fêmea do clã assume seu papel.

Os ratos-toupeira devem sua ‘eterna juventude’, segundo os pesquisadores, às ​​propriedades incomuns de suas mitocôndrias, que desempenham um papel decisivo no envelhecimento. Isso porque, apesar de essas organelas celulares ajudarem os organismos vivos a respirar, elas também acumulam radicais livres tóxicos.

As mitocôndrias encontradas nas células do coração e do fígado dos ratos-toupeiras são, porém, extremamente resistentes aos radicais livres. Concentrações que matariam as células em qualquer outro animal não têm qualquer efeito sobre esses roedores. Assim como em mamíferos recém-nascidos, os níveis de concentração de oxigênio nas mitocôndrias de ratos-toupeira-pelados diminuem a uma velocidade mínima.

Colônia de ratos-toupeira em Moscou 

Há cerca de uma dúzia de laboratórios estudando essa espécie em todo o mundo. A maior colônia de laboratório de ratos-toupeira-pelados, com mais de 2.000 animais, está localizada na Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Os roedores da Universidade Estatal de Moscou foram doados pelo Jardim Zoológico de Berlim. Essa primeira colônia russa pode ser, inclusive, acompanhada on-line.

“Os ratos-toupeira se acostumaram a seu novo ambiente e até procriaram várias vezes”, diz Skulatchev. “Estamos agora trabalhando para aumentar o tamanho da colônia, pois só assim seremos capaz de iniciar experimentos mais complexos. Contamos atualmente com cerca de 60 animais e, até o final do ano, depois que eles procriarem um pouco mais, começaremos a estudar seus cérebros.”

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