Crise sistêmica faz indústria espacial russa mudar de rumo

19 de maio de 2015 Viktoria Zavialova, Gazeta Russa
Reformas estruturais ganharão reforço de setor privado e alianças internacionais. Entre as opções de parceria tecnológica, governo russo avalia participação dos países do Brics em projetos conjuntos.
Número de acidentes envolvendo veículos lançadores russos cresceu nos últimos anos Foto: AP
Número de acidentes envolvendo veículos lançadores russos cresceu nos últimos anos Foto: AP

No sábado passado (16), o veículo lançador Proton-M que transportava o satélite de comunicação mexicano MexSat-1 se desintegrou na atmosfera logo após o lançamento. No início do mês, outro acidente já havia atingido a indústria espacial russa: o cargueiro Progress-26M, que levava mantimentos para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) perdeu o controle e não chegou ao destino planejado.

De acordo com as conclusões preliminares, ambos os acidentes teriam sido causados por problemas com os motores. “Os incidentes são consequência de uma crise sistêmica na indústria”, publicou o vice-premiê Dmítri Rogózin em sua conta no Twitter.

Mesmo assim, Rogózin, que é também responsável pela indústria espacial do país, demonstrou otimismo ao declarar que os problemas atuais poderão ser resolvidos com as atuais reformas administrativas e estruturais da agência espacial russa Roscosmos.

No entanto, alguns especialistas afirmaram que a reforma administrativa é, de fato, insuficiente para vencer a crise sistêmica. “Está tudo ruim, desde o processo de fabricação e qualidade das peças até o controle e execução das missões”, critica o chefe do Instituto de Política Espacial, Ivan Moissev.

“Para superar essa crise precisamos de pessoas e recursos. As bases da crise sistêmica foram estabelecidas ainda durante a era soviética, mas nada foi feito para resolver o problema”, acrescenta Moissev.

Aposta no Brics

O projeto do Programa Espacial Federal (PEF), que determina o desenvolvimento da indústria para o período entre 2016 e 2025, está sendo avaliado pelo Kremlin. O documento prevê que a Rússia reduza os custos com exploração espacial em 10% ao longo da próxima década, incluindo gastos com a produção de veículos lançadores.

No entanto, segundo especialistas, para sair da atual crise, a Rússia precisaria também focar no desenvolvimento da atividade privada aplicada na indústria espacial e à cooperação internacional.

“O programa poderia considerar uma aliança tecnológica mais forte com os países do Brics”, sugere Serguêi Jukov, cosmonauta de testes e presidente do Clube Espacial de Moscou. A Roscosmos já declarou estar disposta a trabalhar com os Brics no projeto de uma nova estação espacial, que poderia substituir a ISS depois de 2024.

Apesar do corte de verba com pesquisas científicas, o programa dispõe de projetos interessantes, como a busca ativa de vida extraterrestre e o desenvolvimento de um novo veículo lançador de classe média para substituir a família Soyuz.

Das pequenas empresas ao cosmos

O PEF da Roscosmos cita, pela primeira na história da indústria espacial russa, a necessidade de suporte aos produtores que trabalham com naves espaciais pequenas.   Porém, segundo Jukov, a Roscosmos deve desenvolver a partir do zero os projetos de apoio à chamada ‘pequena cosmonáutica’, e não apenas investir nos já existentes.

“Eu acredito que o Estado deve ser responsável por desenvolver o programa espacial privado. É preciso introduzir no programa subsídios de apoio aos produtores privados. Só assim podemos esperar que, no futuro, o programa espacial russo não seja um fardo pesando sobre o orçamento”, diz o cosmonauta.

 

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