Cúpula do Brics tem resultado positivo, apesar de ceticismo

Jornais foram céticos e apontaram para falta de ardor de Temer pela organização em relação a predecessora. Reunião realizada no último final de semana em Goa, na Índia, mostra que organização mantém eficácia, apesar das diferenças.
BRICS
Capacidade de tirar acordos do papel foi uma das qualidades ressaltadas por especialistas. Foto:Kremlin.ru

A cúpula dos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ocorrida entre 15 e 16 de outubro em Goa, na Índia, repercutiu na imprensa russa com dúvidas sobre a continuidade da organização, ressaltando os problemas gerados pelas diferenças entre seus membros.

Um dos destaques da imprensa foi a suposta falta de ardor do novo presidente brasileiro, Michel Temer, pelo formato do grupo. As posições do presidente sul-africano também se enfraqueceram em casa, e a Índia não está satisfeita com a influência da China dentro do grupo.

Além disso, o jornal econômico Kommersant relembrou que os membros do Brics têm diferentes concepções sobre a missão do grupo.

Para o veículo, enquanto Moscou e Pequim se interessam pela transformação do Brics em uma estrutura influente no novo mundo multipolar, uma alternativa aos centros de influência do Ocidente, Déli quer incrementar a cooperação com os EUA e usa a organização para alcançar seus objetivos.

Convicção de Pútin

Não foi por acaso, portanto, que a primeira pergunta dada ao presidente Vladímir Pútin na coletiva de imprensa após o encontro em Goa foi sobre os problemas internos do Brics.

O líder russo viu na questão a vontade "de alguns parceiros" da Rússia de "sempre encontrar problemas que não nos ocupariam e que não criaríamos".

"Esse encontro, para ser sincero, me animou, porque vi, pela primeira vez, interesse real no incremento das relações. E surgem reais direções de cooperação", completou.

A declaração deixa claras as expectativas positivas do Kremlin em relação ao grupo.

"A cúpula certamente não piorou a impressão sobre as perspectivas do grupo", avalia o pesquisador-chefe da Academia Presidencial Russa de Economia Nacional e administração Pública, Aleksandr Knobel.

Assim, apesar de o Banco de Desenvolvimento do Brics ter entrado em funcionamento, não eram de se esperar grandes acordos econômicos entre a Rússia e a Índia em Goa.

Nem se deve, tampouco, cogitar a criação de uma zona de livre comércio aos moldes da Parceria Transpacífico.

Para Knobel, as dimensões econômicas das atividades do Brics dificilmente terão um grande aumento nos próximos anos.

Instrumento de influência política

Mas especialistas ressaltam que a economia não é a força motora do grupo.

"Se o Brics fosse apenas uma organização econômica com discordâncias entre os membros, ela estaria arruinada", diz o cientista político Víktor Kheifets, relembrando a importância política dada à criação do grupo.

"Isso diz respeito ao surgimento de um 'grupo dos cinco', um G5, que fará um contrapeso ou um peso complementar ao G7", diz Kheifets.

"Os países-membros precisam desse clube alternativo, cujas opiniões nem sempre são unânimes, para mostrar que têm um papel importante na política mundial", acredita o especialista.

A importância política do grupo também foi realçada por sua declaração final, apesar de essa não refletir, por exemplo, a posição russa sobre a Síria.

Sua capacidade de executar os projetos a que se propõe também tem se sobressaído.  

"Países do Brics não apenas assinam declarações e acordos, mas começam a tirá-los do papel", arremata o decano da faculdade de economia da Escola Superior Econômica de Moscou, Serguêi Karaganov.

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