A reindustrialização forçada da União Soviética

Há 75 anos, durante os primeiros meses da Grande Guerra Patriótica, milhares de empresas e milhões de pessoas foram evacuadas para o leste do país. Nunca antes na história da humanidade havia sido realizada uma tarefa de tamanha magnitude.
Produção de ogivas em Moscou, em 1941 Foto:TASS

O rápido avanço das tropas alemãs durante o verão e o outono de 1941 obrigou a União Soviética a fazer tudo o que era possível para salvar, pelo menos, parte do potencial industrial do país. Apenas nos quatro primeiros meses de guerra, 18 milhões de pessoas e 2.500 fábricas foram evacuadas para o leste do território soviético.

Há relatos, inclusive, de que, durante uma recepção no Kremlin em homenagem ao Dia da Vitória, o ex-líder soviético Iossef Stálin se aproximou dos comandantes militares e perguntou-lhes à custa de que a União Soviética havia vencido a guerra. Enquanto eles falavam sobre a coragem das pessoas e do heroísmo do povo soviético, Stálin chamou um dos ministros e, apontando para ele, disse que o heroísmo e a genialidade militar não seriam de grande valia sem ferro fundido, tanques e aviões.

Em outras palavras, a URSS não teria nada disso se não tivesse sido possível implantar milhares de empresas no leste do país.

Depois do início da guerra, milhões de profissionais especializados seguiram para o leste – segundo algumas estimativas, de 30 a 40% da força de trabalho necessária. Centenas de milhares de crianças foram evacuadas de áreas que logo foram ocupadas pelos nazistas. Muitas delas haviam perdido seus pais e foram adotadas pelos moradores locais.

Também os teatros foram evacuados. O Bolshoi foi levado para a cidade de Samara, cujo nome na época tinha sido alterado para Kuibitchev (em referência ao comandante militar do Exército vermelho durante a guerra civil, e, posteriormente, proeminente político soviético). Somente para a região de Novosibirsk foram evacuadas, pelo menos, 30 instituições de ensino superior e uma série de institutos de pesquisa científica. Não é de se admirar, portanto, que, depois do conflito, Novosibirsk tornou-se um dos centros científicos do país.

Pôster de incentivo ao trabalho no fronte, em 1943 Foto: RIA NôvostiPôster de incentivo ao trabalho no fronte, em 1943 Foto: RIA Nôvosti

 

Viagem penosa

Como a tarefa mais vital era resguardar a indústria, um Conselho de Evacuação foi criado logo nos primeiros dias de guerra. O sucesso da operação se deveu, em grande parte, ao vice-presidente desse órgão, o futuro premiê soviético Aleksêi Kosíguin. Por sua iniciativa, ao longo de toda a extensão das rotas ferroviárias foi organizada uma rede de pontos de evacuação, onde as pessoas podiam se abastecer de alimentos e receber atendimento médico.

A evacuação estava acontecendo em meio a uma poderosa ofensiva alemã. Era preciso levar reforços até a frente de batalha e remover os feridos. Os esquadrões enviados para o fronte eram geralmente utilizados para executar tarefas de evacuação no caminho de volta.

Ao todo, 1,5 milhão de vagões eram usados para fins de evacuação. Nikolai Patolitchev, que em 1942 administrava Tcheliabinsk, descreveu certa vez como esse transporte era realizado.

“Ocasionalmente, as pessoas viajavam em vagões de carga abertos ou em plataformas. Sorte se havia uma lona com a qual era possível se proteger da chuva. Às vezes, nem isso tinha. Junto iam máquinas ou materiais e algumas coisas das pessoas que estavam sendo evacuadas. (…) Em condições mais favoráveis, dois ou três vagões cobertos eram destinados às mulheres com crianças. Em vez de uma lotação de 36 passageiros, de 80 a 100 pessoas apinhavam-se neles (...)”, relembrou Patolitchev.

Empresas enormes eram evacuadas, como a usina Zaporojstal, a maior siderúrgica da Europa. Para transferi-la juntamente com as matérias-primas, foram necessários 8.000 vagões. De acordo pessoas que participaram desses acontecimentos, às vezes, partiam por dia entre 800 e 900 vagões carregados com equipamentos e suprimentos da Zaporojstal.

Além do mais, a desmontagem e o carregamento dos equipamentos eram realizados sob constantes bombardeios da artilharia e da aviação alemã, motivo pelo qual os comboios partiam somente à noite.

Montagem de aviões Iliuchin durante a guerra Foto: TASSMontagem de aviões Iliuchin durante a guerra Foto: TASS

Evolução do leste

A descarga, a montagem e a implantação das empresas no lugar para onde elas haviam sido levadas não ocorria de forma menos árdua. Como era necessário iniciar a produção o mais rápido possível, era comum erguer construções temporárias de madeira. Às vezes, as fábricas começavam a funcionar praticamente em campo aberto, instalava-se apenas a eletricidade.

Segundo o jornalista e historiador inglês Alexander Werth, nos arredores de Sverdlovsk (atual Iekaterinburgo), um grande centro industrial dos Urais, era possível observar o seguinte cenário: máquinas funcionando debaixo de pinheiros dos quais pendiam lâmpadas elétricas. Era a fábrica Bolchevik, evacuada de Kiev e que havia sido ali implantada.

Em um relato, Nikolai Rijkov, que foi primeiro-ministro da URSS no final da década de 1980, recordou que “(...) as pessoas que haviam trabalhado naquela época me contaram como os recém-chegados eram assentados em barracos e como as novas seções das fábricas eram construídas. Por vezes, os comboios eram descarregados em campo aberto. Fazia um frio de – 30ºC, as máquinas ficavam a céu aberto e, então, ligavam a eletricidade e já começavam a tornear o corpo dos projéteis. Não imagino como as pessoas conseguiam suportar”.

Mas só foi possível implantar tão rapidamente as empresas em um novo lugar e transferir totalmente o foco da economia para o setor militar porque as bases para algumas empresas já haviam sido criadas anteriormente. Por exemplo, nos Urais e na Sibéria fora providenciada a ligação elétrica para uma série de companhias. Em função da ameaça de guerra na Europa, planejava-se transferi-las para o leste do país ainda na década de 1930. No entanto, não havia dado tempo de concretizar esses planos antes da guerra.

Como resultado da evacuação, no leste do país foram criadas enormes empresas que se tornaram gigantes da indústria soviética. Em alguns meses, mais uma base industrial foi praticamente criada no país e até hoje ela permanece como um pilar da economia russa.

Metalúrgica Uralmashzavod em Sverdlovsk, em 1944 Foto: Anatóli Garanin/RIA NôvostiMetalúrgica Uralmashzavod em Sverdlovsk, em 1944 Foto: Anatóli Garanin/RIA Nôvosti

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