Diário de um espião da Orquestra Vermelha

Membro de grupo informou a Stálin sobre os planos nazistas em 1941, mas foi ignorado. Após sua captura pela Gestapo, resistiu à pressão e até hoje não há nenhuma evidência de que tenha revelado segredos.
Cerimônia comemorativa em 1967, em Berlim, lembrou a execução de membros da Orquestra Vermelha em 1942 Foto:DPA/Vostock-Photo

Anatóli Gurévitch, que mais tarde se tornaria o agente Kent, nasceu na família de um farmacêutico que falava iídiche, hebraico, ucraniano e russo.

Em fevereiro de 1939, aos 26 anos, Gurévitch fez juramento ao cargo e tornou-se, sob o pseudônimo de Kent, agente clandestino do Departamento Central de Inteligência do Exército Vermelho. Logo após concluir o treinamento, viajou com o passaporte de um artista mexicano (que tinha passado algum tempo na União Soviética) a Bruxelas, onde foi registrado como o empresário uruguaio Vicente Sierra.

No entanto, Sierra só não sabia nada sobre sua terra natal.

Amor clandestino e emprego na Bélgica

Após três anos na Bélgica, o agente de Kent casou-se com a herdeira da gigante de importação e exportação Simexco. Os pais de sua mulher, que eram imigrantes tchecos de origem judaica, tiveram de fugir às pressas da Bélgica já nos primeiros dias da ocupação pelas tropas alemãs.

Gurévitch foi obrigado a assumir a direção de uma empresa com filiais em Paris, Marselha e outras grandes cidades da Europa. O dinheiro acumulado o ajudaria no futuro a manter a rede de espionagem soviética.

“Os batalhões alpinos da Wehrmacht estão se preparando nas montanhas para a guerra contra a Rússia. Os altos funcionários da embaixada alemã não escondem que o ataque contra a URSS está previsto para maio ou julho de 1941”, informou, na época, Gurévitch a Moscou.

No entanto, esta informação, como muitos outros dados que Kent conseguiu reunir sobre os preparativos da guerra contra a URSS, foi ignorada pelo governo soviético.

Em outubro de 1941, Kent recebeu a missão de viajar para Berlim e restaurar o contato perdido do Centro com os antifascistas alemães, a organização chamada Orquestra Vermelha. Já na capital alemã, Gurévitch encontrou-se com oficial alemão Harro Schulze-Boysen, sobrinho do almirante von Tirpitz.

As informações obtidas do tenente da Luftwaffe tiveram valor inestimável, uma vez que revelaram as perdas reais da Wehrmacht em Moscou. Além disso, apresentavam os planos do comando nazista para 1942.

O principal ataque das tropas nazistas, segundo informou Gurévitch a Moscou, seriam feitos contra Stalingrado e no Cáucaso, para aproveitar-se do petróleo da região. Graças a Kent, o Exército Vermelho recebeu a ofensiva totalmente armado, conseguiu liquidar o grupo do Exército alemão e impediu seu acesso a Baku e ao delta do Volga.

Foto: a-gurevich.narod.ruFoto: a-gurevich.narod.ru

Queda da Orquestra Vermelha

A organização caiu no final de 1942, quando o grupo de Bruxelas foi capturado. Kent e sua mulher escaparam primeiro para Paris e depois a Marselha. Mas não conseguiram mudar os passaportes. Em 10 de novembro de 1942, a polícia francesa os entregou à Gestapo.

Ao contrário do que ocorreu com outros membros do grupo, Kent não foi morto ou torturado – teve até autorização para passar algumas noites na mesma sela que sua esposa, mas sabia que sua vida e de seus familiares dependia de sua colaboração.

Depois de um tempo, Gurévitch foi informado que Moscou recebia telegramas em seu nome com todo tipo de conteúdo.

“Aconteça o que acontecer, você é um traidor para Moscou”, disse um general da Gestapo a Anatóli.

Somente anos depois chegou-se ao consenso na União Soviética que Gurévitch não tinha entregue qualquer um de seus aliados nem revelado à Gestapo um único fato de que os nazistas não soubessem – nem sequer seu verdadeiro sobrenome.

Mesmo durante o tempo que passou preso, de novembro de 1942 a junho de 1945, Gurévitch recrutou guardas e os convenceu de que o governo soviético saberia recompensar seu trabalho pelo Exército Vermelho.

O preço do regresso à pátria

Ao voltar a Moscou, em junho de 1945, seguiu diretamente para o edifício da KGB, na Lubianka, onde foi informado que sua esposa e filho, nascido na prisão alemã, haviam morrido durante um bombardeio. Em 1947 foi enviado para servir 20 anos em um campo de trabalho por “traição à pátria”. Oito depois, juntamente com outros espiões que haviam retornado à URSS, Gurévitch recebeu anistia.

Em 1958, porém, começou a buscar a justiça: escreveu cartas pata várias autoridades, mas acabou sendo preso por dois anos.

Aos 90 anos, em 2003, Gurévitch resumiu a si mesmo em uma entrevista em sua casa em São Petersburgo:

“Eu não sei por que tudo isso aconteceu. Talvez fosse por orgulho da sede central, que durante a guerra cometeu uma infinidade de erros, por orgulho no geral de um homem passa por cima de tudo. Talvez, fosse porque, para infelicidades deles, eu continuasse vivo e era testemunha desses erros, uma memória viva.”

Foto: a-gurevich.narod.ruFoto: a-gurevich.narod.ru

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