Um século e meio de Kandinsky

Esta sexta (16) marca aniversário de um dos pais da arte abstrata. Para celebrar, a Gazeta Russa reuniu curiosidades sobre esse mestre transgressor de formas preconcebidas.
Kandinsky teve diversas obras escondidas durante a URSS por não representar ideias da época Foto:AFP/East News

Curso de Direito

Antes de se dedicar integralmente à pintura, Kandinsky seguia uma profissão “séria”: para agradar os pais, formou-se em Direito na Universidade de Moscou. Sua carreira como advogado seguia a todo vapor – tanto é que, ao concluir o curso, em 1893, permaneceu na instituição como professor e, três anos mais tarde, a Universidade de Derptski de Tartu (atual Estônia) ofereceu-lhe  a vaga de professor de jurisprudência. Na época, Kandinsky, já com 30 anos, decidiu enfim dedicar-se à pintura.

Amante da música

Em seu imaginário, a pintura estava intimamente ligada à música. A impressão causada pela representação de Lohengrin de Wagner no Bolshoi foi um dos motivos que o incentivou a deixar a carreira de advogado. “Os violinos, os contrabaixos profundos e, sobretudo, os instrumentos de sopro encarnavam, em minha percepção, toda a força da hora vespertina, via mentalmente todas as minhas pinturas, eu as tinha diante de meus olhos”, descreve Kandinsky em seu livro autobiográfico, “Passos”.

Designer e fotógrafo

A síntese das artes era extremamente importante para Kandinsky, que não se limitava à pintura e à música. Também projetava interiores, criava esboços de pinturas para murais, confecção de roupas e móveis, e tinha interesse por fotografia e cinema.

Retratos da aristocracia

Em busca de uma nova linguagem, Kandinsky tentou vários estilos diferentes. Em 1896, ficou maravilhado pelo “Monte de feno”, do francês Monet, em uma exposição em Moscou. A arte modernista e simbolista eram muito próximas a ele, mas pintava cenas típicas de casas aristocráticas, como, por exemplo, a obra “Grupo em Crinolina”, de 1909, que hoje se encontra na galeria Tretiakov.

Drogado e louco

As primeiras abstrações de Kandinsky foram precedidas por uma simplificação e uma destruição gradual das formas de suas cenas típicas – que praticava não só na pintura, mas também com xilogravura. Em 1910, na segunda exposição da Nova Associação de Artistas de Munique, que costumava incluir pintores de diversos países (entre eles Picasso), Kandinsky mostrou seu “Estudo para Composição II”, atualmente exposta no Museu Guggenheim, em Nova York. A crítica reagiu com acusações mordazes de que o quadro era fruto do trabalho de um louco ou “viciado em morfina e haxixe”.

Frasco concebido por Kandinsky para a exposição mundial em 1912 Foto: Alamy/Legion mídiaFrasco concebido por Kandinsky para a exposição mundial em 1912 Foto: Alamy/Legion mídia

Primeira obra abstrata

“Pintura com círculo” (1911), que hoje se encontra preservada no Museu Nacional da Geórgia, em Tbilisi, é considerada a primeira obra abstrata de Wassily Kandinsky (e, em geral, a primeira obra abstrativa do mundo). Segundo o artista, a natureza dá impulso para a criação, mas copiar não faz sentido: a luz é o mais importante, pois confere o tom emocional e ajuda a estruturar a composição; a forma, entretanto, é a combinação de planos e linhas que cria o movimento.

Novos gêneros

Ao rejeitar cenários em seus quadros, Kandinsky introduziu uma nova classificação de gêneros. No lugar de retratos, paisagens e natureza morta, sugiram as ‘impressões’: obras em que se preserva a ligação com a natureza; as ‘improvisações’: expressões espontâneas e, muitas vezes, inconscientes das sensações e emoções internas; e as ‘composições’: síntese externa e conteúdo interno expressos pela linha e pela cor.

Dando vida à cor

A cor nas obras de Kandinsky é autônoma e não está relacionada com a cena retratada. Ele chamava as pinturas  de “seres vivos” e acreditava que tinham a capacidade de afetar diretamente a alma de quem as contemplava. Baseando-se em uma teoria de Goethe, estabeleceu suas próprias relações: o amarelo lembra o som da flauta, simboliza o terreno, acentua o movimento em direção ao espectador e se corresponde com o triângulo; o azul está associado à paz celestial, à tristeza, ao movimento do espectador, ao círculo e ao som do violoncelo; o vermelho é a ebulição interna a e forma quadrada, enquanto o verde remete a quietude e antiemocionalidade.

Contra o racionalismo da vanguarda russa

A irracionalidade e a emocionalidade das obras de Kandinsky se opunham ao racionalismo outros vanguardistas russos, o que ficou ainda mais evidente após a revolução, quando Kandinsky coincidiu com Aleksandr Ródtchenko ensino em arte russa. Não é possível executar as suas ideias educacionais na Rússia, em 1922, ele foi trabalhar em uma escola alemã de Bauhaus, onde ensinou desenho analítico e pintura mural.

Longo do espírito soviético

Kandinsky foi um pintor muito prolífico: só no período de pesquisa da linguagem abstrata, entre 1909 e 1914, pintou 200 telas e um enorme número de esboços. Muitos deles foram perdidos, porém – na URSS eram enviados para museus provinciais e escondidos nos arquivos pois não correspondiam ao espírito do realismo socialista, enquanto que na Alemanha nazista eram descritos como arte degenerada.

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