Autobiografia de Chagall fornece raro vislumbre da mente do artista russo

6 de julho de 2016 Ajay Kamalakaran, Gazeta Russa
Escrita no início da década de 1920, “Minha Vida” é uma autobiografia poética em que Chagall tenta se reconciliar com sua infância difícil e com o início da vida adulta no Império Russo. Esta quarta-feira (6) marca o 129º aniversário de nascimento do pintor modernista.

Marc Chagall nasceu em uma pobre e tradicional família judaica no dia 6 de julho de 1887, em Vitebsk (na atual Bielorrússia). Durante sua infância e juventude, o antissemitismo e os pogroms (atos em massa de violência contra judeus, protestantes, eslavos e outras minorias étnicas) eram comuns no Império Russo. Em “Minha Vida”, que foi escrito no início de 1920, o artista fornece um breve olhar sobre sua vida na Rússia.

Chagall compartilhou muitas recordações agradáveis e há relatos históricos interessantes sobre sua infância, incluindo quando o tsar Nikolai II visitou Vitebsk para avaliar os regimentos que estavam prestes a seguir para o Extremo Oriente a fim de lutar na guerra russo-japonesa. “Fileiras de garotos, animados e sonolentos, eram encontradas ao longo do caminho, e seguiam em longas filas pelos campos cobertos de neve”, descreveu Chagall.

Depois de esperar por horas com neve até os tornozelos, os meninos viram o comboio que transportava a comitiva. De longe, conseguiu avistar o tsar, que parecia “muito pálido”.

Over the town, State Tretyakov Gallery"Sobre a cidade" Fonte: Galeria Tretyakov

Aos 19 anos, Chagall mudou-se para São Petersburgo, onde foi aluno do famoso artista russo Leon Bakst. Na época, enfrentava uma verdadeira batalha financeira e só podia se dar ao luxo de alugar metade de um quarto. Em certa passagem do livro, ele descreve o dia em que testemunhou um companheiro de quarto bêbado apontando a faca para a esposa na tentativa de obrigá-la a ter relações sexuais com ele.

“Percebi então que, na Rússia, os judeus não são os únicos que não têm o direito de viver, mas também muitos russos, amontoados como piolhos no cabelo”, escreveu.

O artista sentiu-se aliviado ao experimentar mais liberdade após se mudar para Paris em 1910. Mas, embora estivesse feliz na capital francesa, Chagall ansiava por retornar à Rússia. Mesmo assim, seu amor pelas obras de artistas europeus manteve-o na França. Depois de uma visita ao Louvre, que já exibia obras de Manet, Delacroix e Courbet, Chagall “não queria mais nada”.

“Aqui no Louvre (...) eu entendi por que eu não poderia me aliar à Rússia e à arte russa”, declarou. “Porque meu próprio discurso é estrangeiro para eles.”

De volta à Rússia

No livro, Chagall descreve também o encontro com sua futura esposa, Bella Rosenfeld.

“Seu silêncio é meu, seus olhos são meus”, escreveu. “É como se ela soubesse tudo sobre minha infância, meu presente, meu futuro, como se pudesse enxergar através de mim.”

Marc and Bella Chagall Foto: GettyImagesMarc e Bella Chagall, em agosto de 1934, em Paris Foto: Getty Images

Em 1914, Chagall voltou a Vitebsk para se casar com Bella. O que seria uma curta visita acabou se transformando em uma estadia de oito anos, já que a eclosão da Primeira Guerra Mundial forçou o artista a permanecer na Rússia.

Ao longo dos anos seguintes, tornou-se famoso em todo o país, e suas obras foram exibidas em Moscou e São Petersburgo.

Após a Revolução Bolchevique, Chagall assumiu o papel de Comissário das Artes para Vitebsk e fundou o Colégio das Artes na cidade. Mais tarde, mudou-se para Moscou com sua mulher, mas teve pouco sucesso profissional. Enfrentando a pobreza e uma vida difícil na União Soviética, pediu um visto de saída em 1921. Começou a escrever suas memórias enquanto aguardava a permissão para voltar à França.

Apesar das dificuldades na Rússia e da discriminação que Chagall enfrentou, em sua autobiografia fica evidente que ele não nutria uma imagem negativa em relação à Rússia. Seu maior apego, é claro, era a sua cidade natal Vitebsk.

O livro se encerra com seus últimos pensamentos finais antes de partir para Paris. “E talvez a Europa vá me amar, e, com ela, a minha Rússia”, escreveu.

Nove décadas depois, Marc Chagall é lembrado com carinho na Europa, como um dos grandes artistas do século 20, e também na Rússia, que hoje faz questão de resgatar a memória de um de seus filhos pródigos.

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