Fora do Oscar, Kontchalôvski diz por que evita Hollywood

Em entrevista sobre “Paraíso”, o diretor Andrêi Kontchalôvski fala sobre roteiro e suas intenções, inovações formais, críticas, e por que voltar a filmar na Rússia lhe deu mais liberdade artística. Filme rendeu prêmio de diretor no Festival de Veneza e foi pré-indicado para a lista de melhor estrangeiro ao Oscar 2017.
Kontchalôvski na pré-estreia de "Paraíso" em Moscou Foto:Ekaterina Tchesnokova/RIA Nôvosti

Pré-selecionado entre os indicados estrangeiros ao Oscar para este ano, o filme "Paraíso", de Andrêi Kontchalôvski, não chegou à lista final de nomeados. O diretor ganhou ano passado o prêmio de melhor direção no Festival de Cinema de Veneza, e agora o filme estreia nas salas de cinema do Brasil em 26 de janeiro.

"Paraíso" tem dois personagens principais. Ele é Helmut, um oficial da SS que chega ao campo de concentração para investigar crimes de corrupção. Ela é Olga, uma princesa russa, emigrante, que entrou para as fileiras da resistência francesa e acabou em um campo de concentração por ter abrigado crianças judias em seu apartamento. 

Tempos atrás, antes da guerra, Helmut e Olga tiveram um romance de verão. Agora os protagonistas têm uma escolha a fazer. Ele vai colocar em risco sua carreira e suas crenças e tentar salvar o amor de sua juventude da câmara de gás? E ela precisa responder à questão: o que é mais importante salvar, seu corpo ou sua alma?

Director Andrei Konchalovsky win the Silver Lion for Best Direction for the movie 'Paradise' at the award ceremony at the 73rd Venice International Film Festival on September 10, 2016 in Venice, Italy. / Geisler-Fotopress/Global Look PressDirector Andrei Konchalovsky win the Silver Lion for Best Direction for the movie 'Paradise' at the award ceremony at the 73rd Venice International Film Festival on September 10, 2016 in Venice, Italy. / Geisler-Fotopress/Global Look Press

Nas próximas semanas, o filme também será lançado na Europa e nos Estados Unidos. 

A Gazeta Russa entrevistou Andrêi Kontchalôvski há algumas semanas. Leia trechos da conversa:

Gazeta Russa: O filme fala do Holocausto. Por um lado, esse tema permanece inesgotável para o cinema mundial, mas, por outro lado, muitos o consideram conjuntural. Nos últimos dois anos os vencedores do “Oscar" foram filmes vindos da Europa Oriental dedicados ao Holocausto. O senhor ouviu críticas sobre isso? 

Andrêi Kontchalôvski: Não, embora eu esteja pronto para quaisquer recriminações. Afinal, o que é uma crítica? É apenas a interpretação daquilo que a pessoa viu na tela. Ao assistir “Paraíso”, alguém pode ter a impressão de que se trata de um filme sobre o Holocausto. Bem, não vou me opor a essa interpretação. Talvez, no sistema de percepção da realidade do expectador que irá assimilar o filme dessa maneira, seja isso mesmo. Intencionalmente, eu removi do "Paraíso" tudo que não era ambíguo. E, por causa disso, agora me fazem perguntas do tipo “e a cena onde sua heroína se pendura no pescoço do oficial da SS e diz que ele é representante de um povo grandioso, que tem direito de cometer todas as atrocidades, é uma cena acusadora ou irônica?”. Eu nunca respondo diretamente a essa pergunta. Pode ser que seja acusadora, mas, também, pode ser que seja irônica. Para não nos embrenharmos numa selva desde a primeira pergunta, deixe eu te dizer o seguinte: é claro que para mim "Paraíso" não é um filme sobre o Holocausto. Nele é mostrada a tragédia do povo judeu, mas isso não é o tema principal do filme. Bem mais importante para mim era fazer um filme sobre a fascinação exercida pelo mal. O protagonista do filme é um oficial da SS incrivelmente bem educado e atraente. Mas é aí que está todo o horror.

Paradise movie by Konchalovsky nominated for Oscar from Russia / Kinopoisk.RuParadise movie by Konchalovsky nominated for Oscar from Russia / Kinopoisk.Ru

Gazeta Russa: O filme está tendo uma excelente repercussão internacional, recebeu prêmios em festivais, entrou para a lista dos pré-indicados ao Oscar e tem garantida a atenção do público. É importante para o senhor saber até que ponto o público ocidental terá uma percepção “correta” do seu filme?

Andrêi Kontchalôvski: Para mim, tudo o que aconteceu com o "Paraíso" em Veneza e em relação ao "Oscar" faz parte de uma série de surpresas agradáveis. Ainda bem que as coisas se moldaram de tal forma que, em uma época em que o Ocidente recomeçou a exercer uma pressão forte sobre a Rússia, as pessoas ali terão a oportunidade de ver um filme que poderá explicar-lhes pelo menos algumas outras coisas sobre a Rússia e sobre os russos. Penso que eles entenderão tudo corretamente.

Gazeta Russa: O filme “Paraíso”, depois de um longo intervalo, também marcou seu regressou ao cinema mundial no sentido pleno dessa palavra, pois o senhor fez o filme em várias línguas, trabalhou com uma equipe de filmagem europeia e as filmagens foram realizadas na Alemanha e na França. Houve algum choque de “culturas” durante este processo?

Andrêi Kontchalôvski: A principal dificuldade dessa junção consistia no fato de que as pessoas que trabalhavam no meu grupo não se preocupavam com horários. Eu tinha que pensar sobre isso. Elas não pensavam em quando deviam começar e terminar um trabalho, pois estavam emocionalmente envolvidas com ele. Porém, na Alemanha é tudo preto ou branco, não existe meio termo. Eles achavam estranho o fato de estarmos duas horas atrasados e continuarmos filmando. Eles estranhavam quando em vez de 12, filmávamos durante 6 horas no dia. Nós chegávamos, filmávamos e terminávamos o serviço. Então íamos embora, mas eles ficavam por mais seis horas, para justificar o seu salário, apesar de não haver mais nada para fazer. Neste sentido, as duas mentalidades não coincidiam. Nós os entendemos, mas eles não conseguem nos compreender. Entretanto, tratando-se dos artistas, não houve qualquer problema, pois seu envolvimento com o material do filme foi do jeito que deveria ser.

Paradise movie by Konchalovsky nominated for Oscar from Russia / Kinopoisk.RuParadise movie by Konchalovsky nominated for Oscar from Russia / Kinopoisk.Ru

Gazeta Russa: O fracasso do filme “Quebra-Nozes”, no qual o senhor trabalhou há 6 anos em Hollywood, influenciou o processo de sua volta como diretor agora?

Andrêi Kontchalôvski: Muita coisa me influenciou e isso também. Na época, eu ainda não tinha entendido que um cineasta russo não tem o que buscar em Hollywood. Lá você é necessário apenas enquanto for um profissional sem espírito criador, mas, se de repente você revelar alguma ambição um pouco acima da média, então, todos começam a colocar empecilhos à sua frente. Portanto, não tenho nenhuma vontade de voltar a Hollywood, com suas hierarquias tradicionais, onde nos atribuem um lugar qualquer, ao pé da pirâmide. A propósito, você notou como "Paraíso" foi filmado do ponto de vista formal?

Gazeta Russa:  O senhor quer dizer que durante quase metade do filme seus protagonistas estão sentados e conversam com a câmera?

Andrêi Kontchalôvski: Exatamente. De certa forma, é uma completa loucura escrever um roteiro onde as pessoas, enquadradas em plano fechado (close-up), ficam apenas olhando para a câmera e falando durante metade do filme. Se eu tivesse oferecido esse roteiro a qualquer estúdio de Hollywood, teria ouvido: "Você ficou louco?”. Por isso, estou contente em agora estar vivendo na Rússia, onde esse tipo de loucuras podem se concretizar.

Fonte: YouTube/Monica Cabras

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