O legado de Lomonossov para além da Universidade

19 de novembro de 2016 Oleg Egorov, Gazeta Russa
Este sábado (19) marca 305º aniversário de cientista que acumulou obras e descobertas.
Lomonossov fingiu ser da realeza para se garantir em Moscou Foto:Lori/Legion-Media

Lomonossov nasceu em 1711 na região de Arkhanguelsk, quase mil km ao norte de Moscou, na família de um rico camponês pescador que, assim como seus antepassados, estava envolvido com comércio marítimo.

O cientista lembrava-se de seu pai como um homem amável, porém “educado com extrema ignorância”. O mesmo não se pode dizer, entretanto, sobre o próprio Lomonossov, que estudou desde a infância e dominou vários livros enquanto ainda vivia em sua aldeia.

Busca pelo conhecimento

Pouco a pouco, a vida na aldeia tornou-se insuportável para o jovem, especialmente devido às discussões com sua madrasta e ao desejo do pai de casá-lo contra contra sua vontade.

Em 1730, fugiu para Moscou com uma fileira de carros de peixe e entrou na Academia Eslava-grega-latina. Mas, uma vez que crianças camponesas não eram admitidas na academia, Lomonossov apresentou-se como “filho de um nobre”.

A administração do local acreditou facilmente que o jovem, que sabia ler e escrever, bem como matemática, era um aristocrata. Mas Lomonossov só recebeu oficialmente o título de nobre, junto com o de professor de Química, em 1745.

Cientisa multifuncional

Lomonossov passou anos estudando: fez cursos em Moscou, Kiev, São Petersburgo, nas cidades alemãs de Marburg e Freiberg, e se especializou em várias disciplinas – da filosofia à metalurgia. Mesmos em suas atividades posteriores, o cientista preservou essa diversidade, fazendo simultaneamente coisas diferentes.

Polímata (do grego, “aquele que aprendeu muito”), era muitas vezes comparado a Leonardo da Vinci, tão ampla era a sua esfera de interesses e atividades.

O russo não só aperfeiçoou a tecnologia de fabricação de vidro, como desenvolveu teorias de física e química (considerada por ele sua principal vocação), trabalhou nas áreas de astronomia e geografia, escreveu manuais de gramática e obras históricas, traduziu poesia e até produzia mosaicos.

Paralelamente, Lomonossov desenvolveu o projeto de fundação da Universidade de Moscou (1755), que hoje leva seu nome e é considerada uma das melhores da Rússia.

Dois passos à frente

Em 1901, 136 anos após a morte de Lomonossov, o professor de Geologia Vassíli Dokutchaev, declarou enfaticamente sua admiração por uma das obras do cientista.

“Há muitos anos Lomonossov propôs em seus trabalhos a teoria que defendi em minha tese de de doutorado e a descrevi de forma mais ampla”, escreveu.

Há outros exemplos de como Lomonossov estava à frente de seu tempo. Em 1761, ele foi o primeiro a descobrir que o planeta Vênus possui atmosfera observando-o através de um telescópio.

Além disso, por meio de documentos pertencentes à Academia de Ciências, soube-se que, em 1754, ele desenvolveu um protótipo de helicóptero – um veículo aéreo capaz de decolar verticalmente com duas hélices.

Sua teoria cinético-corpuscular do calor antecipou também, em muitos sentidos, conceitos de átomos que apareceram apenas cem anos depois.

Sangue quente

Segundo contemporâneos, Lomonossov não era um cientista quietão. Em seu artigo sobre ele, o professor da Universidade Estatal de Moscou Grigóri Pruttskov descreve que, durante o trabalho na Academia de Ciências, Lomonossov havia lutado com ardor contra o domínio alemão.

Um dos poucos russos que trabalhavam na academia na época, Lomonossov acusou seus colegas alemães de suborno e incompetência.

Um contemporâneo conta que, em 1743, o cientista, “sob a influência de vinho”, invadiu o departamento de geografia e repreendeu seus colegas por não saberem o básico de latim, chamando-os de “lixo” e fazendo “sinais obscenos com os dedos”.

Lomonossov não tinha medo de mostrar seu temperamento nem mesmo durante as discussões com seu influente patrono, Ivan Chuvalov, um dos favoritos de Catarina, a Grande. Certa vez, Chuvalov gritou para o cientista, no calor de uma discussão, que iria removê-lo da Academia.

“Se acontecer alguma coisa, será a Academia removida de mim”, disse Lomonossov, em tom de orgulho.

O fã Púchkin

Não é por acaso que Lomonossov tinha muitos inimigos, inclusive na alta sociedade.

Um deles era é Aleksandr Sumarokov, talentoso poeta e dramaturgo da época. As relações eram tão ruins que, após a morte do cientista em 1765, de pneumonia, Sumarokov declarou: “O tolo finalmente se acalmou e não fará mais barulho”.

Em compensação, Aleksandr Púchkin, que nasceu após a morte de Lomonossov, tinha uma opinião completamente diferente dele.

“Lomonossov era um grande homem. Entre Piotr 1º e Catarina 2ª, ele foi o único defensor do Iluminismo, fundou a primeira universidade da Rússia, ou melhor, foi nossa primeira universidade”, dizia o poeta.

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