Peça em SP foca em censura sobre compositores soviéticos

Em cartaz no CCBB, "Aula Magna com Stálin" retrata relação de ditador com Shostakovitch e Prokofiev.
A peça é uma ficção que poderia ter acontecido na vida real Foto: Roberto Setton
A peça é uma ficção que poderia ter acontecido na vida real Foto: Roberto Setton

Está em cartaz até o dia 3 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a peça “Aula Magna com Stálin”, do dramaturgo britânico David Pownall.

O texto de 1983 mistura o tradicional sarcasmo britânico com doses igualmente generosas de humor e drama para tratar das relações entre a arte e o poder. O tema é um prato cheio para a montagem de qualquer dramaturgo no Brasil, que há décadas convive com questões como ditadura, censura, controle da mídia etc.

"O texto é atemporal, daqui a 100 anos será possível montá-lo. O que interessa ali é a conexão entre arte e política, uma questão à qual a gente sempre volta, como a regulação da mídia para enquadrar ou limitar a liberdade. Sempre corremos o risco de encaminhar, doutrinar ou aparelhar o fazer artístico, por mais democrático que seja o regime", diz o diretor do espetáculo, o paulistano William Pereira.

Ação da peça ocorre em Moscou, em janeiro de 1948, às vésperas do 1º Congresso de Compositores da URSS. Foto: Roberto Setton 

Há quase 20 anos tentando montar a peça agora em cartaz, Pereira faz surgir no palco um piano no canto de um escritório rodeado por caixas pretas empilhadas contendo nomes de intelectuais e políticos da resistência soviética.

É ali que dois compositores, o experiente e consagrado Serguêi Prokofiev (Carlos Palma) e o jovem e promissor Dmítri Shostakovitch (Felipe Folgosi), são pressionados pelo líder máximo da União Soviética, Josef Stálin (Jairo Mattos), retratado com um viés cômico, e seu secretário, Andrêi Jdonov (Luis Damasceno), um personagem farsesco.

O recurso dramático permite que os quatro atores permaneçam o tempo todo em cena, como a explicitar um estado em que tudo está permanentemente visível e vigiado, em um regime que não admite a privacidade.

“O teatro trabalha com questões arquetípicas, que independem da nacionalidade”, disse o diretor em entrevista exclusiva para a Gazeta Russa. “O texto [original] pedia um salão ricamente decorado do Kremlin. Eu achei que seria como uma sala de tortura. As caixas pretas em cena são como as caixas-pretas de avião, onde tudo está gravado, fichado, catalogado.”

A arte copia a vida

A peça é uma ficção que poderia ter acontecido na vida real. Dividida em duas partes – uma dramática, outra cômica -, passa-se em Moscou, em janeiro de 1948, às vésperas do 1º Congresso de Compositores da URSS.

No enredo, Prokofiev e Shostakovitch são convocados para uma reunião com Stálin e seu secretário a fim de definir os novos rumos para a arte soviética, conforme as diretrizes da causa socialista que serão debatidas no Congresso.

Em segundo ato, músicos se dobram aos caprichos da política e tem início uma vingança velada dos compositores. Foto: Roberto Setton 

O primeiro ato é um ritual de humilhação onde os dois compositores são pressionados a seguir o gosto de Stálin. Na concepção do ditador, os artistas são “engenheiros da alma” e suas músicas devem fazer referência a canções folclóricas do povo, a fim de construir o coletivo e sacrificar as individualidades.

No segundo ato, quando fica claro que Stálin e seu secretário não abrirão mão de decidir os rumos da música na União Soviética, os mestres da técnica se dobram aos caprichos da política e tem início uma vingança velada dos compositores, expressa numa fanfarrice em cena.

Para o diretor, as referências entre o período stalinista e a Rússia pós-soviética que são criadas com a montagem são muitas.

"Tem uma parte do texto em que o próprio Stálin fala para Jdanov: 'Eu te mandei para uma missão importante e você vomitou na porta do hotel, levantou a saia das mulheres...'. A imagem que me vem na cabeça é o Iéltsin. Essas referências são muito fortes, então esse Pútin é o neo-Stálin", diz.

 

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