A tradição dos nomes russos

14 de outubro de 2014 Taras Repin, Rússkaia Semiórka
Depois de surgirem os nomes cristãos na Rússia, os apelidos não desapareceram, mas antes se tornaram um complemento do nome principal.
Autógrafo de Aleksandr 1º Foto: Rússkaia Semiórka
Autógrafo de Aleksandr 1º Foto: Rússkaia Semiórka

A tradição de dar apelidos se formou na Rússia ainda na era pré-cristã. Qualquer palavra associada com usos e costumes, hábitos, aparência física ou meio ambiente podia se transformar em nome. Nomes numéricos chegaram a ficar na moda: Piérvi (primeiro), Vtorak (segundo), Tretiák (terceiro), pela ordem de nascimento. Traços físicos também: Beliák (de branco, branquelo), Malhuta (pessoa pequena), além de nomes relacionados com traços do caráter –Moltchân (calado), Smeiâna (risonha), Istoma (lânguido), com a natureza –Bik (touro), Chuka (lúcio), Dub (carvalho)– ou com ofícios no geral –Lôjka (colher), Kuznéts (ferreiro), Chuba (casaco de peles).

Com o tempo, os apelidos podiam ser substituídos por outros que se tornavam mais apropriados.

A fim de evitar a influência nociva dos espíritos ruins ou de outros indivíduos, as pessoas recebiam muitas vezes um nome que descrevia um defeito seu, não raras vezes fictício: Nekrás (feio), Zloba (raivoso), Kriv (vesgo de um olho só). Segundo a crença popular, um nome despretensioso assim protegia o seu dono do mau-olhado e de pragas. Era a lógica do princípio "do contrário": se você já é chamado de vesgo não ficará mais vesgo.

Depois de surgirem os nomes cristãos na Rússia, os apelidos não desapareceram, mas antes se tornaram um complemento do nome principal. Eles eram usados ​​tanto no meio da classe baixa, como entre as pessoas mais nobres: o grande líder militar Aleksandr Névski (Neva), o educador e poeta Semion Polótski (Polotsk) e o príncipe moscovita Ivan Kalita (Kalita). Os nomes "apelidados” estiveram em uso até serem proibidos por Pedro 1º. Mas já a partir do século 15 eles começaram a ser transformados em sobrenome.

Sob o signo de dois nomes

Entre os séculos 14 e 16 era tradição na Rússia dar à criança, no momento do nascimento, o chamado nome direto, em honra do santo que fosse homenageado nesse dia. Ao contrário do nome público, o nome direto era usado no círculo íntimo da família e dos amigos. Assim, o czar Vassíli 3º usava o nome direto de Gavriil e seu filho, Ivan, o Terrível, era conhecido como Tit. Às vezes surgiam situações paradoxais: podia acontecer de dois irmãos serem homônimos absolutos, tendo ambos o mesmo nome público e o mesmo nome direto. O filho mais velho e o filho mais novo de Ivan, o Terrível, tinham ambos o nome público de Dmítri, enquanto no círculo dos mais chegados eram conhecidos por Uar.

A tradição do nome direto tem a sua origem na linhagem dos Rurik, os grandes príncipes dessa dinastia que governou a Rússia antes dos Romanov e que usava tanto nomes pagãos, como nomes cristãos: Iaroslav-Guiórgui (Múdri) ou Vladímir-Vassíli (Monomakh).

Na dinastia Rurik havia duas categorias de nomes: os nomes eslavos, que eram compostos por duas partes –Iaropolk (Iaro-polk; Iar, "calor"), Sviatoslav, Ostromir– e os nomes escandinavos –Olga, Gleb, Ígor. Apenas os nobres tinham nome. Somente no século 14 é que os nomes se tornam de uso comum. Curiosamente, o nome da linhagem não podia ficar livre: se morria o avô, o seu nome era dado ao neto recém-nascido, no entanto, não se permitia dois irmãos-xarás ao mesmo tempo.

Com o fortalecimento do cristianismo na Rússia, os nomes eslavos começaram a se tornar coisa do passado. Havia até mesmo uma lista de nomes banidos e particular interdição recaía sobre os nomes associados com o paganismo, como era o caso de Iarilo ou Lada. Também a linhagem dos Rurik acabou por ter que ir recusando gradualmente as preferências dinásticas em favor de nomes cristãos. Já Vladímir Sviatoslavitch recebeu o nome de Vassíli no batismo e a grã-duquesa Olga, o nome de Elena.

Nomes dos Romanovs

A atualização da onomástica dos Romanov aconteceu durante o reinado de Ekaterina 2a. Ela introduziu novos nomes ao chamar os seus netos de Nikolai (em honra do santo Nikolai Tchudotvorets), Konstantin (em honra de Constantino Magno) e Aleksandr (em honra de Aleksandr Névski). Com o tempo e o crescimento da árvore genealógica dos Romanov, começaram a retornar nomes dinásticos já meio esquecidos: Nikita, Olga, e mesmo Rostislav, que não tem nenhum dia dedicado a ele.

Era natural dar nomes de parentes mais velhos. Ao darem nomes aos seus filhos, os Romanov se guiavam principalmente pelos costumes de seus antepassados. Com isso se explica existirem numerosos Nikolais, Aleksandrs, Piôtrs. No entanto, após o assassinato de Piôtr 3º [Pedro 3º] (1728-1762) e, em seguida, do seu filho Pável 1º [Paulo 1º] (1754-1801), os nomes Piôtr e Pável foram banidos.

Ivan

Não foi por acaso que o nome Ivan se tornou genérico: era esse o nome de um em cada quatro camponeses no tempo do Império Russo. Além disso, os sem documentos que caíam nas mãos da polícia diziam sempre se chamar Ivan, que foi o que levou ao surgimento da expressão "Ivan, que não se lembra do sobrenome".

Durante muito tempo, o nome com origens judaicas Ivan não foi usado na dinastia reinante, mas, depois de Ivan 1º, surgiram mais três soberanos com esse nome na linhagem dos Rurik. Os Romanov também chegaram a usar esse nome, mas, após a morte em 1764 de Ivan 6º, o nome foi banido.

Continuidade por linha paternal

A utilização do nome da ascendência paterna na Rússia como parte do sobrenome é a confirmação da ligação do indivíduo ao pai. Pessoas nobres e simples chamavam a si mesmas de, por exemplo, "Mikhail, filho de Piôtr". Se considerava que adicionar a partícula "-itch" ao patronímico era um privilégio especial, permitido apenas às pessoas de linhagens mais nobre.

A partir do século 19 o patronímico começou a ser utilizado pela intelectualidade emergente e, após a abolição da servidão feudal dos camponeses (1861), também estes ganham o direito de o usar. A vida do homem moderno já não é mais concebível sem o patronímico, que não é apenas uma forma respeitosa de se dirigir a uma pessoa, mas também uma necessidade para poder se distinguir pessoas que tenham o mesmo nome e sobrenome.

 

Publicado originalmente pela Rússkaia Semiórka

 

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