“Embaixadores informais” suprem falta de centros de cultura russos no Brasil

Canto, costumes e danças russas chegam aos brasileiros graças a trabalho voluntário.
Grupo Folclórico Russo Troyka Foto: arquivo pessoal
Grupo Folclórico Russo Troyka Foto: arquivo pessoal

Não havia como resistir à lábia daquele brasileiro simpático e bem falante que apareceu de uma hora para outra na Rússia, nos primórdios do século 20, cantando em verso e prosa o Rio Grande do Sul. Segundo ele, propagandista por natureza, esse trecho do Brasil seria praticamente um Eldorado, uma terra prometida onde haveria de tudo em abundância - caça, pesca, terras férteis - além de um maravilhoso clima tropical. 

Dentre os que caíram no canto da sereia estava a família Zabolotsky. Ao pisarem, em 1911, em Campina das Missões, fundada por imigrantes russos em 1909, Ivan Zabolotsky, seus pais e seu irmão perceberam que nem tudo correspondia à descrição do gaúcho orgulhoso de sua terra, principalmente no quesito clima, mas como já estavam lá, resolveram ficar.

E não se arrependeram. A terra era de primeira – nisso o propagandista não os enganara. Tiveram êxito plantando, a duras penas, culturas que recompensaram seus esforços, tais como soja, milho, trigo, cevada e centeio. E a família cresceu.

Condecorado em Moscou 

 Caberia ao filho de Ivan, que no Brasil virou João, a missão de perpetuar a cultura russa na nova terra de seus pais. Nascido em 1956, Jacinto Anatólio Zabolotsky, criou, em julho de 1992 a Associação Cultural Russa Volga do Brasil, que deu origem ao Grupo Folclórico Russo Troyka.

O grupo tem, desde então, divulgado a cultura russa dentro e fora do Brasil, em mais de 500 shows nos principais festivais, eventos e feiras locais, regionais, nacionais e internacionais.

Visita de Peregrinos russos a Campina das Missões Foto: arquivo pessoal

Em reconhecimento a seu trabalho inestimável, Jacinto recebeu, em maio de 2010, em Moscou, a Medalha e Ordem de São Sérgio de Radonej do Santíssimo Patriarca de Moscou e toda Rússia.

Advogado e escritor, autor de um livro a respeito da imigração russa no Brasil traduzido para o russo, Zabolotsky é um dos filhos de russos que "saíram da Rússia, mas a Rússia não saiu deles".

Por meio de associações culturais em atividade em São Paulo, Rio, Brasília, Campina das Missões e Recife – que suprem a ausência de centros de cultura russos - eles matam saudades do país natal, ao mesmo tempo em que mostram a Rússia aos brasileiros e participam da vida política russa, ainda que a milhares de quilômetros.

Em março deste ano, por exemplo, Zabolotsky elaborou moção de apoio à incorporação da Crimeia pelo governo da Rússia e a apresentou formalmente à Conferência dos Compatriotas Russos do Brasil, em 29 de março. O documento foi aprovado por unanimidade e encaminhado ao cônsul-geral da Rússia em São Paulo, Konstantin Kamenev, e ao Governo Russo.

Mostrar quem são esses “embaixadores informais da Rússia no Brasil” é uma homenagem que a Gazeta Russa presta por ocasião do Dia Nacional da Rússia, comemorado a 12 de junho desde 2002. Na mesma data, em 1990,  foi assinada a Declaração de Soberania do Estado Russo.
  
Canto lírico

Galina Chevtchuk, natural da Bielorrússia, engenheira tecnóloga formada em Odessa, onde se casou com o brasileiro e tradutor juramentado Miguel Szewczuk, chegou ao Brasil em 1964 acompanhando o marido, que decidira retornar a São Paulo.

Galina aprendeu a falar português, mas não esqueceu suas raízes, assumindo desde logo missões diplomáticas voluntárias, tais como a de presidente do Coral Russo Melodia e presidente do Conselho Coordenador dos Compatriotas Russos do Brasil.

O Coral se apresenta em teatros, clubes, exposições, festivais de corais Foto: Galina Chevtchuk/arquivo pessoal

“O Coral foi fundado em 1989 por profissionais do canto lírico, cantores amantes da música coral, alguns  formados na ex-União Soviética,  Harbin [na China], ex-Iugoslavia e em outros países da Europa”, conta.

 Atualmente, os 28 cantores interpretam repertório de 70 músicas sob a batuta de Yury Ponomaryov e com direção artística de Natalia Shigaeff, professora de canto lírico formada pela Escola Soviética Superior de Música de Harbin.”

O Coral se apresenta em teatros, clubes, exposições, festivais de corais, bailes russos e em eventos beneficentes com muito sucesso, segundo Galina.

“Os brasileiros nos recebem calorosamente e gostam muito das músicas russas. Os auditórios ficam  lotados. Temos um público  cativo, que está sempre à espera por nossas apresentações.”

Coral Melodia vai se apresentar no Teatro São Pedro, ao lado de outros grupos folclóricos Foto: Galina Chevtchuk/arquivo pessoal

O coral é composto exclusivamente por adultos com boa preparação vocal e que se aperfeiçoam permanentemente. As novas gerações também participam, as duas mais novas  cantoras líricas têm 24 anos e o grupo recebeu neste ano mais duas jovens cantoras. Os integrantes são, em sua maioria, de origem russa, mas há também brasileiros que simpatizam com a música e a cultura russas.

Dia 15 de junho próximo, o Coral Melodia vai se apresentar no Teatro São Pedro, ao lado de outros grupos folclóricos, celebrando o Dia Nacional da Federação Russa com a presença do cônsul russo em São Paulo, Konstantin Sergueievitch Kámeniev.
 
Chanceler

Natural de Korczew (12.09.1934), que fica ao lado do rio Bug, a 4 km de Brest, Ígor Chnee desembarcou aos dez anos em Ravensburg, no sul da Alemanha, próximo à fronteira com a Suíça, onde se formou no ginásio. Aos 15 anos, ele já estava no Brasil, onde o pai alcançou muito sucesso como industrial.

“Meu pai, Anatóli Viktorovich Chnee, produziu em sua fábrica de Taubaté o primeiro leite condensado do Brasil, chamado Itambé, que existe até hoje.”

Ígor se formou na Faculdade de Ciências Contábeis e Atuariais e, posteriormente, em Ciências Econômicas na Universidade de Mackenzie, em São Paulo Foto: arquivo pessoal

Em Taubaté Ígor se formou na Faculdade de Ciências Contábeis e Atuariais e, posteriormente, em Ciências Econômicas na Universidade de Mackenzie, em São Paulo.

Hoje é vice-presidente da Sociedade Filantropica Paulista, denominada Lar São Nikolau, um asilo de russos e eslavos, onde atualmente residem 22 idosos, e vice-presidente da  Sociedade dos Compatriotas Russos do Brasil.  

Foi condecorado pelo chanceler  Serguêi Lavrov em Moscou pelos serviços voluntários prestados ao asilo russo e à comunidade russa  nos últimos 20 anos.

“As principais atividades da Sociedade são culturais e de suporte a conterrâneos e visitantes, tais como a organização e apresentação do pianista Iúra Zoldin em São Paulo; assistência prestada ao atleta Serguei Bubka no Brasil; recepção dos cientistas russos Dmítri Gitman, Galina Pugatchova, Anatóli Gusev e recepção de Mikhail Gorbatchov e Raissa Maksimovna em 1992.”

Volga

A família da mãe de Tamara Gers Dimitrov vivia na Bielorrússia. Mas com a invasão da cidade de Pinsk, todos fugiram para a Alemanha no final da Segunda Guerra Mundial e emigraram para o Brasil em 1947.

O pai, natural de Kharbin, Manchúria, China, onde havia uma colônia russa significativa, desembarcou no Brasil em 1954, fugindo de Mao-Tse-Tung.

Inicialmente, na década de 80, a associação era um grupo de danças folclóricas Foto: arquivo pessoal/Tamara Gers Dimitrov

Assim como seus pais, Tamara vive na Vila Zelina, o bairro dos imigrantes do Leste Europeu em São Paulo, e preside a Associação Cultural Volga.

“Inicialmente, na década de 80, a associação era um grupo de danças folclóricas que começou com 60 pessoas, todos jovens imigrantes ou filhos de imigrantes russos. Nos anos seguintes as atividades se diversificaram abrangendo coral, música, teatro, danças, montagem de exposições, workshops culturais, participação em fóruns, concursos e atividades esportivas, chegando a mais de 150 participantes e colaboradores. Por essa razão, não se trata mais de um grupo folclórico apenas, mas de uma associação cultural.”

 

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