A moda Soviética nos anos 1920

Por mais estranho que seja, os anos 1920 foram uma das épocas em que a moda esteve mais presente na história soviética.
As ideias inovadoras dos pintores construtivistas dos anos 1920 começaram a penetrar gradativamente no mundo da moda Foto: AFP / EastNews
As ideias inovadoras dos pintores construtivistas dos anos 1920 começaram a penetrar gradativamente no mundo da moda Foto: AFP / EastNews

Costuma-se acreditar que, após a Revolução Russa, não havia tempo para se pensar em moda no país. Em meio ao mais cruel terror, à fome e à guerra, como alguém poderia falar de moda? Por mais estranho que seja, no entanto, os anos 1920 foram uma das épocas em que a moda esteve mais presente na história soviética.

Naqueles anos, a revolução e uma nova ideologia com tendência ao ascetismo ditavam as condições para o desenvolvimento da moda. Um exemplo eram as “kójankas” (jaquetas de couro compradas em grande quantidade na época da Primeira Guerra Mundial para o uso do exército czarista, particularmente da aviação, que foram expropriadas e utilizadas para equipar os funcionários da Cheka, Comissão Extraordinária de Combate à Contrarrevolução e à Sabotagem). Já os lenços vermelhos, que não eram amarrados de maneira tradicional, sob o queixo, e sim atrás, na nuca, simbolizavam a libertação das mulheres da “opressão imperial”.

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Em paralelo estava sendo desenvolvido o trabalho de criação da "roupa do futuro", funcional e adequada ao espírito de construção do comunismo. Uma das tarefas do design soviético dos anos 1920 era a criação do “traje de produção”, que foi chamado de “prozodejda” (termo formado a partir da palavra abreviada “proizvodstvo”, que quer dizer produção, e da palavra “odejda”, que significa roupa). Os designers desenvolviam  uniformes para cirurgiões, pilotos, bombeiros, pedreiros e vendedores. Assim, o “progenitor” do pôster soviético, o artista letão Gustav Klutsis, desenvolveu um traje de mineiro com uma lâmpada no capacete e um cinto sinalizador equipado com um complexo teclado. O vestuário era concebido como um microambiente da pessoa. Tecidos simples como lona, linho cru, chita, algodão cru, lã, feltro, flanela e lã grossa serviam de matéria-prima para os primeiros modelos do traje soviético.

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As ideias inovadoras dos pintores construtivistas começaram a penetrar gradativamente no mundo da moda. Ornamentos suprematistas (Suprematismo foi um movimento artístico russo centrado em formas geométricas básicas) em suéteres e cachecóis e esboços dos desenhos de Nadejda Lamánova no estilo cubista e suprematista para trajes da moda feitos de seda eram muito requisitados. Na costura, as apostas eram feitas na estrutura do modelo e no design dos fechos e dos bolsos. Essa abordagem em relação à roupa era parecida, de alguma maneira, com as ideias dos estilistas minimalistas de hoje. A quase total ausência de adornos, a ênfase na forma e na carga funcional, todas essas técnicas são atualizadas hoje nas coleções de Jil Sander e Stella McCartney.

Foto: AFP/EastNews

A partir de 1924, seguindo os passos dos construtivistas, o ornamento geométrico vistoso e abstrato entrou na moda. Na Primeira Fábrica Têxtil, as pintoras L. Popova e V. Stepánova desenvolviam amostras de tecidos de vanguarda que entraram na linha de produção e foram postos à venda. E muitos anos mais tarde começaram a surgir nas passarelas ao redor do mundo as formas e os tecidos geométricos (por exemplo, o lendário vestido-trapézio de Yves Saint Laurent), descobertos na década de 1920 pelos construtivistas russos.

Também a atitude em relação ao esboço era inovadora. A ele era dispensado uma posição de destaque na formação da imagem e da concepção da coleção. O esboço era a personificação do próprio processo de busca criativa, e não o desenho de um modelo pronto. Mais tarde, essa técnica foi usada (talvez de forma totalmente independente) por Christian Dior, Yves Saint Laurent e muitos outros.

Lília Brik colaborou com a revista "Atelier" Foto: AFP/EastNews

Na mesma época também surgiu a primeira revista nacional de moda, o "Atelier", criada junto a um centro de alta costura inovador, o Atelier da Moda. No editorial foram apresentados a principal meta e os objetivos mais importantes: “A ativa e incansável busca da identificação de tudo o que é criativamente belo, tudo o que merece maior atenção no campo da cultura material”. Apenas a lista de nomes famosos que se comprometeu a colaborar com a revista (os pintores Iúri Ánnenkov, Boris Kustódiev, Kuzma Petrov-Vódkin, a escultora Vera Múkhina, a poetisa Anna Akhmátova e muitos outros) já era suficiente para se determinar a grandiosidade do projeto.

Além das suntuosas ilustrações e dos modelos construtivistas de vanguarda, a revista oferecia um panorama das tendências europeias da época, no qual o sistema de controle soviético enxergou "vestígios do capitalismo", levando a primeira edição da revista a se tornar a única. 

 

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