Nikolai II: da queda da URSS à era Pútin

2 de maio de 2014 Aleksandr Morozov, politólogo
Imagem do último imperador passou por três períodos significativos na Rússia pós-soviética.
Ato público realizado em 2002 na cidade ucrianana de Kiev em homenagem ao último imperador Foto: Foto: Aleksandr Poliakov / RIA Nóvosti
Ato público realizado em 2002 na cidade ucrianana de Kiev em homenagem ao último imperador Foto: Foto: Aleksandr Poliakov / RIA Nóvosti

O primeiro período, no início dos anos 1990, herdou a percepção do período da perestroika. A execução não somente de Nikolai, mas de seus filhos e servos na época, foi percebida como um prenúncio de toda a história futura da repressão soviética em sua extrema crueldade, até mesmo com relação a crianças. Naquela época, não havia um profundo interesse pelo seu reinado, pela sua política, em geral. E a sua imagem de homem melancólico e politicamente fraco não era contestada.

Mas, na primeira metade da década de 1990, a literatura da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior (IORE) teve uma entrada maciça no país. Como nela Nikolai II havia canonizado em 1981, alguns lugares passaram a também manter uma adoração pelo último imperador, como se ele fosse um santo. Na época, o Patriarcado de Moscou mostrou-se contra a canonização. A comissão especial tinha objeções referentes à renúncia, um ato inadmissível de acordo com os cânones da igreja, e à política interna de Nikolai II com relação à igreja. O imperador havia se oposto à restauração do Patriarcado, abolido ainda na época de Pedro, o Grande.

Também não havia um esclarecimento conclusivo sobre os restos mortais da família real. As descobertas de 1971 pelo grupo de Riabov-Avdonin foram contestados por parte da comunidade eclesiástica e histórica. Para piorar, o então  da Igreja Ortodoxa russa Aleksi tinha uma atitude extremamente crítica em relação a Nikolai, conforme as determinações do Conselho Local, realizado após o colapso da monarquia. Nesse conselho, A Igreja desenvolveu os importantes princípios de vida fora da monarquia. O próprio reinado de Nikolai era ofuscado por Raspútin, cujo favoritismo dividiu o episcopado russo.

Os debates sobre a canonização deram origem a uma vasta literatura. Surgiram inúmeros artigos e documentários que reabilitavam Nikolai II como um bom pai de família, um sábio “tsar do povo”. Nos primeiros anos após o colapso do bloco soviético, Nikolai II foi uma das muitas vítimas políticas dos comunistas, mas, na segunda metade dos anos 1990, sua imagem começou a se preencher com um novo significado.

Religião civil

Depois 1996, os liberais na Rússia perderam a vivacidade de outrora. O segundo período de presidência de Iéltsin foi acompanhado por uma profunda cisão da sociedade. Acabou a esperança de uma rápida integração no mundo ocidental após o comunismo. É então que Nikolai II se torna um importante símbolo da resistência conservadora e um símbolo sagrado do poder russo, que protege o povo e a fé contra uma conspiração global da civilização ocidental.

A família real continuou tomando as manchetes de jornais ao longo dos anos 1990 porque Iéltsin instituiu, em 1993, uma comissão para identificar os restos mortais. Para Iéltsin, o destino de Nikolai II tinha uma dimensão pessoal. O ex-presidente foi  prefeito de Sverdlovsk, em Iekaterinburgo, exatamente nos anos em que foi decidido destruir a “Casa dos Ipatiev”, onde a família real foi executada. Inúmeros debates e inspeções terminaram com uma cerimônia de sepultamento oficial em 1998. Uma parte do público, mesmo após a decisão oficial sobre os restos mortais, continuou a contestar a sua autenticidade. E isso continua até agora.

Mas com a chega de Pútin ao poder, em 2000, o tema de Nikolai na “memória política” do Kremlin perdeu força, pois não mostrava interesse pelo período pré-soviético da história russa. Pútin herdou de Iéltsin uma sociedade dividida. Os pais-fundadores da Rússia pós-soviética não conseguiram, como nos outros países do antigo “Bloco do Leste”, liquidar rapidamente o legado do comunismo. Em seu primeiro mandato, Pútin tentou construir uma política de encerramento simbólico da longa guerra civil russa do século 20, reconciliar os brancos e os vermelhos. Se por um lado deixou o antigo hino soviético, por outro relacionava-se com o adepto da monarquia Soljenítsin e voltou a sepultar no mosteiro de Danilov as cinzas de generais brancos que morreram em exílio.

Depois de 2005, quando seu regime político ficou fortalecido, Putin e seu governo tentaram firmemente criar um monumento unificado dos símbolos de grandeza russa. Nele estavam representados Aleksandr Nevski, Stálin, Lênin, Iúri Gagárin, o mais popular santo russo Serafim Sarovski e o marechal Jukov. Nesse monumento foi incluído Nikolai II. A tentativa de Pútin de criar uma espécie de “religião civil”, composta de eventos e figuras simbólicas do passado, foi mais bem sucedida do que no período de Iéltsin. Porém, isso teve um custo alto.

Coerência histórica

Toda a segunda metade da década de 2000 foi preenchida por debates na televisão sobre a grandeza de Stálin e seus generais. A história da Rússia passou novamente a ser tratada como uma história de força. A abordagem de Putin à história, porém, é desprovida de calor. Ele a trata de forma tecnológica.

Hoje em dia, Nikolai II, como o último imperador e portador de uma compreensão especial do poder russo, não se destaca entre os outros soberanos russos. Para o presidente atual, é muito mais importante explorar a vitória na Segunda Guerra Mundial e o papel de Stálin do que a recuperação econômica dos tempos de Nikolai II. A imagem de Nikolai II no gabinete hoje é apenas uma das muitas imagens de governantes russos, dos precursores do “autoritarismo instruído” de Pútin.

A formação da nação civil pós-soviética não foi concluída; a cisão da sociedade permanece. Ainda não houve uma reconciliação com o próprio passado. Em 1994, de acordo com os resultados da pesquisa sobre “Quem das figuras históricas do passado você chamaria de um verdadeiro patriota russo?”, Nikolai II nem sequer entrou na lista dos dez primeiros. Apenas 5% dos entrevistados o avaliaram como um patriota. Mas, em 2013, a situação mudou drasticamente.

A última pesquisa conduzida pelo Centro Levada mostrou que o papel de Iéltsin e Gorbatchov foi avaliado positivamente por 4 e 3%, respectivamente. Com uma larga margem à frente, ambos foram superados por Stálin (13%), Brejnev (13%) e Nikolai II (14%). Pútin incumbiu os historiadores de tentar novamente escrever uma história da Rússia “coerente”. Como será relatado o tema do reinado de Nikolai II, ainda não está claro. O 400º aniversário da dinastia Romanov este ano está sendo comemorado discretamente, sem um grande programa cultural e oficial. Em compensação, o Kremlin decidiu celebrar amplamente outro aniversário: o início da Primeira Guerra Mundial, já que o tema militar e a “bravura das armas russas” se encaixa mais facilmente nas necessidades ideológicas da liderança atual.

 

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